Existe atualmente “uma demanda insaciável por cocaína na Europa e na América do Norte” frustrando quase todos os planos de combate ao tráfico e utilização da droga, tanto nos territórios referidos quanto na maioria dos países da América Latina. A constatação, cuja obviedade está patenteada no noticiário diuturno dos órgãos de imprensa, faz parte da reportagem publicada pelo jornal britânico The Guardian, reproduzida na edição de ontem de O Estado de S. Paulo.
Segundo o repórter Rory Carrol, autor do texto em questão, mais de 750 toneladas de cocaína saem anualmente da região andina para os maiores centros de consumo, numa indústria “multibilionária” que expulsou da terra milhares de camponeses, provocou guerras entre cartéis rivais e chegou a corromper instituições ligadas ao aparelho de Estado.
O ex-presidente da Colômbia, César Gaviria, um dos dirigentes superiores da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, disse há poucos dias considerar “a guerra às drogas um fracasso porque os objetivos nunca foram alcançados”. A experiência do ex-presidente colombiano o autoriza também a comentar que “as políticas proibicionistas com base na erradicação, interdição e criminalização do consumo não renderam os resultados esperados. Estamos hoje mais longe do que nunca da meta de erradicar as drogas”. Como se percebe, um desafio sem precedentes na agenda dos governantes de diferentes países e, não somente deles, mas em igual ou maior parcela de responsabilidade de pais, educadores, terapeutas, religiosos e outros profissionais ligados à área do comportamento humano.
A matéria informa que foram ouvidos muitos agentes legais, plantadores de coca, refugiados e políticos, sendo que tais depoimentos deram sustentação a um quadro sombrio da autêntica “guerra” ao tráfico de drogas, no momento em que se realiza na cidade de Viena, capital da Áustria, a reunião de cúpula convocada pela Organização das Nações Unidas (ONU), para debater a questão. Representantes em nível de ministros de vários países discutem hoje a nova abordagem da ONU sobre a questão das drogas, que movimentam US$ 320 bilhões por ano no mundo inteiro.
Somente no ano passado, no México, cerca de seis mil pessoas perderam a vida (10 mil nos últimos três anos), em face da violência que permeia o mundo da droga no referido país. No primeiro semestre de 2008, na Colômbia, os cartéis da cocaína obrigaram 270 mil camponeses a abandonar suas terras, num êxodo rural inominável que desnuda não apenas a ousadia ilimitada das organizações criminosas, mas, num patamar bastante próximo da calamidade pública, o abissal despreparo das autoridades para empreender planos eficazes de combate ao narcotráfico.
A Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, da qual o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) também é um dos copresidentes, propõe a “mudança de paradigma” com a troca da abordagem de repressão para a de saúde pública, incluindo a descriminação da maconha. Aliás, a tese foi defendida por FHC em recente reunião realizada pela comissão no Brasil. As estatísticas altamente preocupantes sobre cultivo de coca, exportações de cocaína e taxas de assassinatos amplificaram os apelos para a substituição da política que vigora desde a administração do presidente Richard Nixon, com vistas a um enfoque diretamente centrado na diminuição da procura por substâncias entorpecentes.
Maior exportador de cocaína do mundo, a Colômbia recebeu nos últimos oito anos US$ 6 milhões de ajuda norte-americana para fumigar as plantações de coca da qual a droga é extraída, mas a produção não diminuiu. Todavia, a área mais delicada para os Estados Unidos é a fronteira com o México, onde grupos criminosos do narcotráfico e do contrabando de armas concentram a atuação. Militares de alta patente se referem à situação como análoga ao combate dos insurgentes no Iraque e Afeganistão, justificando o gasto anual da ordem de US$ 40 bilhões em operações diretas ou em cooperação com outros países.