Ivan Schmidt
O Congresso já viveu tempos supinamente mais afinados com os manuais do bom comportamento, é preciso reconhecer. Dia desses um amigo relembrava soturno episódio na história da República, o fechamento da Câmara e do Senado, por imposição do infausto Pacote de Abril baixado pelo ditador Ernesto Geisel, à época saudado como ?o constituinte do Riacho Fundo?.
Na visão desabrida do timoneiro Ulysses Guimarães, a afrontosa atitude do general-presidente em muito o aproximou da abominável figura de Idi Amim Dada, o soba todo-poderoso de Uganda, homem que espalhou entre os mais atrasados dentre a paupérrima população do país africano o mito de que conversava com crocodilos, hienas e outras alimárias.
Recordava-se, volto ao Congresso, a postura de coragem e dignidade assumida pelo deputado federal Djalma Marinho, do Rio Grande do Norte, parlamentar encarregado de receber do oficial das Forças Armadas o ditado de clausura. Marinho não apenas negou-se a vistar o papelucho, como teria proclamado antes de virar as costas ao militar: ?Ao rei tudo, menos a honra?.
Essa tradição de independência, um dos traços que mais dignificaram o Congresso ao longo de sua trajetória, e como faz questão de acentuar a senadora Heloísa Helena, esteio mais forte do cumprimento da nobre missão congressual, que é a de fiscalizar os atos do Poder Executivo, ao que tudo indica, foi submergida pelo delúbio, desculpem, dilúvio de denúncias que aos poucos vão sendo comprovadas, uma a uma.
Sem cair na preconceituosa e descabida generalização utilizada pelo deputado Roberto Jefferson, ao lançar sobre deputados e senadores a petulante suspeita de que todos gastam muitíssimo mais para se eleger do que declaram nas contas encaminhadas aos tribunais regionais eleitorais, e tampouco sem assumir a defesa de quem quer que seja, não há como concordar com o autêntico nivelamento por baixo argüido pelo deputado fluminense.
É possível que os 300 picaretas que Luiz Inácio conheceu nos corredores do Congresso, na época da Assembléia Nacional Constituinte, ainda estejam lá mesmo atendendo por nomes diferentes e, com certeza, em legendas outras, ainda assim inoculados pelo germe do apego às nomeações, emendas eleitoreiras, favorecimentos sibilinos ou à modalidade recém-descoberta da mercancia de votos em troca do mensalão.
A farândola de nomes de parlamentares envolvidos no esconso negócio do suborno cresce todo dia, criando na sociedade a ansiosa expectativa de quem será o próximo a ser denunciado. Por outro lado, é de inteira justiça reconhecer a presença de homens e mulheres dignos e respeitáveis em ambas as casas do Congresso, ao mesmo tempo que deles se requer a cooperação – que não haverá de faltar – na tarefa de empreender a limpeza total das infectas cocheiras freqüentadas por predadores do dinheiro público.
Não é de agora, e nem invenção do governo atual, a compra de votos de congressistas, sobretudo daqueles que jamais tencionaram ocultar a enorme disposição de fazer jus à oração de São Francisco, em fidelíssimo acordo com o piedoso sentimento do ?é dando que se recebe?. Contudo, a constatação que tal desvio de conduta foi absorvido e estimulado por quadros de frente da executiva nacional do Partido dos Trabalhadores é algo insustentável na concepção dos que sempre se bateram por democracia e justiça social.
É difícil aceitar que o governo do presidente Lula tenha sido colonizado por figuras incompatíveis com a assepsia esperada da gestão pública e, mais grave, aparelhado por legítima sociedade de celerados cujo único escopo era valer-se da intimidade do poder para afundar as mãos nas copiosas burras governamentais. A absurda quantidade de saques em espécie efetuados pelo Goebbels das Alterosas em contas bancárias de suas agências de publicidade, a incrível coincidência nas datas dos saques e votações importantes no Congresso conferem credibilidade às denúncias do deputado Roberto Jefferson, personalidade notabilizada exatamente pelo excesso de vaidade pessoal e ambigüidade.
Aos poucos o quadro vai assumindo sua verdadeira conformação. É triste perceber que a democracia brasileira -mesmo avançando um pouco – não perde o vezo do retrocesso. Quando se imaginava que a vida pública estivesse livre da ação das sinistras aves de rapina, eis que afloram com o cabotinismo de praxe a duvidosa simbiose de interesses públicos e privados, e a distribuição de benesses aos sibaritas que vigiam os butins com a perseverança do inspetor Javert. Ninguém merece.
Ivan Schmidt é jornalista.