Léo de Almeida Neves
Em entrevista telefônica a 250 jornalistas e a 400 analistas estrangeiros, a diretoria da Vale do Rio Doce anunciou que ofereceu US$ 17 bilhões à vista para comprar a Canada Inco Ltd., líder no mercado mundial de níquel. Só um surto de loucura poderia justificar tamanho disparate. Quatro bancos internacionais – ABN Amro, UBS, CreditSuisse e Santander – emprestarão à Vale US$ 4,5 bilhões, com prazo de dois anos. Se não puder pagar, ela corre o perigo de ser absorvida por esses bancos ou ser vendida a alguma multinacional.
O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Demian Fiocca, afirmou, com absoluta sem-cerimônia e desfaçatez, que ?vê com bons olhos? conceder refinanciamento, se após os dois anos a Vale não puder pagar os bancos. A que ponto chegamos! Que saudades do ex-presidente do BNDES, Carlos Lessa, que em novembro/2003 impediu que a Vale viesse a ser transferida ao controle estrangeiro, quando absorveu 8,5% das ações do fundo dos funcionários. Ou do Guido Mantega, que manteve o banco independente.
O jornal O Globo publicou longa matéria, contendo declarações de analista especializado, dizendo que ?em 2002 a Vale poderia ter comprado a canadense ?Inco? por 1/4 da oferta atual e um ano atrás adquiriria pela metade do preço?. Vejam o absurdo: em 2005, a Vale teve fantástico lucro de US$ 4,8 bilhões, com receita total de US$ 13,4 bilhões. A Inco lucrou somente US$ 836 milhões em uma receita de US$ 4,518 bilhões. Traduzindo em miúdo: a Vale é muito mais lucrativa do que a Inco.
Notem outros dois graves inconvenientes. Atualmente, o endividamento da Vale é de US$ 5,9 bilhões e subirá para US$ 25,6 bilhões, segundo as agências de risco Moody?s e Fitch, que com o anúncio dessa aquisição revisaram negativamente os ?ratings? da companhia. Com a oferta de US$ 17 bilhões válida por 45 dias, caiu na Bolsa de Valores de São Paulo a cotação das ações da Vale, enquanto em Toronto/Canadá as ações da Inco fecharam em alta.
É bom relembrar que a Vale foi privatizada em 6 de maio de 1997, no governo Fernando Henrique Cardoso, por míseros R$ 3,3 bilhões, e não tiveram o cuidado de reservar ao governo uma Ação Gold Share, que daria ao poder público o direito de veto a negócios escabrosos e perniciosos ao interesse nacional. Na Embraer a União possui essa Ação Gold Share. O dever da Cia. Vale do Rio Doce seria acelerar no Brasil os seus projetos em andamento de exploração de níquel nas jazidas Vermelho, Onça, Puma, São João do Piauí e Água Branca, investindo mais e antecipando a extração do minério.
Há que se desconsiderar o frágil argumento de que a Vale precisa internacionalizar-se e diversificar atividades. Ela é a maior produtora mundial de minério de ferro e juntamente com a Austrália e África do Sul detém praticamente o oligopólio dessa matéria-prima, exportada em volume ascendente para a China, União Européia e outros mercados. Ressalte-se que as reservas brasileiras já medidas são suficientes para quatrocentos anos de exploração. A atitude lógica da Vale seria concretizar o mais rápido possível uma associação, ainda que minoritária, com multinacionais chinesas, alemãs, japonesas, coreanas, norte-americanas ou canadenses, a fim de implantar no Brasil usinas siderúrgicas para que o País, ao invés de exportar bem primário, faça-o com produto industrializado de valor agregado.
A Vale tem dívida para sempre com o povo brasileiro, que durante 55 anos (fundada pelo estadista Getúlio Vargas em 1942 e privatizada em 1997) arcou com muito sacrifício os investimentos de sua expansão e a transformou na principal mineradora de ferro do mundo, com a produção da Serra de Carajás em destaque, e criou complexo ferroviário e portuário de notável eficiência, tornando a estatal lucrativa e principal geradora de divisas do País.
Esse negócio com a Inco precisa ser sustado, pois, além de tudo, aplicar US$ 17 bilhões no Canadá é uma afronta a um país cujo PIB cresceu 2,5% em 2005, superando apenas o Haiti. Ademais, a Previ e os outros fundos de pensão não podem comprometer sua rentabilidade.
Os presidenciáveis Lula, Alckmin, Heloísa Helena e Cristovam Buarque não têm como omitir-se nesse assunto. A palavra é deles.
Léo de Almeida Neves é ex-deputado federal e ex-diretor do Banco do Brasil, autor dos livros Destino do Brasil: Potência Mundial e Vivência de Fatos Históricos.