Começa amanhã em Londres a cúpula dos chefes de estado ou governo das economias do G-20, bloco responsável por 85% de toda a produção mundial. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva estará presente e deverá insistir na tese da ampliação da relevância do grupo, incluindo decisões não apenas restritas a temas econômicos, mas envolvendo também responsabilidades políticas e na polêmica seara do aquecimento global.

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Em longa entrevista concedida ao jornalista Fareed Zakaria, da CNN, uma das mais importantes redes de televisão dos Estados Unidos, o presidente brasileiro se esmerou em comentar que o G20 é muito mais representativo e heterogêneo, e por esse motivo “representa com muito mais fidelidade a geografia política e econômica do mundo de hoje”. Numa resoluta alfinetada no G8, grupo formado pelos sete países mais ricos do mundo e a Rússia, Lula afirmou tratar-se de “uma coisa meio defeituosa”, contrapondo a existência de inúmeras economias emergentes de maior importância, raras vezes convocadas a aparecer em eventos desse nível para revelar o que pensam.

Apesar da ênfase exagerada dada por alguns participantes do G20 às suas próprias crenças, os analistas esperam poucos resultados concretos. Um deles provavelmente será a confirmação do êxito pessoal do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, ao obter dos governos de dez paraísos fiscais o compromisso ainda não-oficial da liberação de informações às autoridades financeiras e policiais dos países de origem, sobre a atuação de eventuais fraudadores do fisco. Os países comprometidos a tomar medidas drásticas para coibir o curso das fraudes financeiras são a Suíça, Liechtenstein, Luxemburgo, Mônaco, Áustria, Andorra, Bélgica, Singapura, Hong Kong e Macau.

Há alguns governantes dispostos a desafiar o presidente Barack Obama a exercer uma vigilância sem tréguas sobre alguns pontos do território norte-americano, igualmente transformados em paraísos fiscais.

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Um dos temas obrigatórios na cúpula de Londres será a adoção tardia de medidas que impeçam o sistema financeiro de conceder salários nababescos e outras compensações a seus principais executivos, como ocorreu recentemente com a AIG (uma das maiores companhias de seguro do mundo), cuja falência foi evitada pelo socorro de bilhões de dólares prestado pelo governo dos Estados Unidos. Qual não foi a perplexidade do governo, do mercado e da opinião pública, quando se soube que a referida empresa havia direcionado US$ 165 milhões em régios prêmios conferidos a diretores, gerentes e altos funcionários.

Decerto foi com base nessa atitude verdadeiramente farisaica frente à ajuda de emergência oriunda do setor público, que o primeiro-ministro Gordon Brown identificou a dificuldade “dos que trabalharam duramente para construir suas empresas ou negócios de entender os motivos que levam determinadas companhias a recompensar o fracasso dos que fizeram péssimas apostas com o dinheiro alheio”. Brown afiançou estar na hora do sistema bancário voltar a trabalhar com “valores de família”, fazendo da “honestidade e justiça” os pilares de sua atuação. Pode-se perceber pelo tom hierático das palavras do dirigente político britânico, que as falcatruas cometidas por executivos de grandes conglomerados financeiros tiveram natureza grave e, destarte, é uma ofensa inqualificável à sociedade que tais atitudes passíveis de processos criminais, ao contrário, sejam recompensadas.

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O primeiro-ministro francês, Nicolas Sarkozy, vai brigar pela implantação de um organismo regulador do sistema financeiro mundial, mesmo diante da declarada oposição dos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha. Brown comentou com os jornalistas que a proposta do dirigente francês “é ridícula”. Sarkozy, no entanto, reiterou a disposição de esgotar todas as possibilidades do debate e, num ato extremo, retirar-se da cúpula se a tese for rejeitada. Lula chegará com o discurso calibrado e, portanto, sem novidades. Reclamará a reforma das organizações multilaterais (Fundo Monetário Internacional – FMI – e Banco Mundial) e do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), no qual o Brasil augura um assento permanente.