Ouvir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é ter a sensação de que vivemos no Éden. Em meio a uma tremenda crise financeira global, estamos em vôo de cruzeiro, sem problemas estruturais e com a economia de vento em popa. Está tudo tão bem que o presidente aproveita seus discursos para fazer gracejos, como na quinta-feira, durante o anúncio de um pacote de incentivo à produção e ao consumo no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.
Onde Vossa Excelência estava? Em mais um anúncio de pacote para evitar os efeitos da crise internacional. Não é o primeiro, não será o último – e não será fácil suplantar o terremoto que vem de fora. Ontem, mais uma notícia preocupante. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou a projeção da safra agrícola de 2009, com previsão de queda de 3,3% na produção da agricultura brasileira.
Segundo o IBGE, o reflexo é direto. A crise diminuiu a capacidade de endividamento das instituições financeiras em todo o mundo, e por isso há menos crédito. Os investimentos diminuem e os produtores precisam abdicar de produtos tecnologicamente melhores, e com isso têm quebra de produtividade. O final desta história é conhecido: maior procura, menor oferta, preços mais caros, risco da espiral inflacionária reaparecer.
É este o temor generalizado. Apesar da confiança do presidente, não nos sentimos fortes o suficiente para encarar um ataque especulativo que atinja o real e crie inflação. Na surdina, os ministros da área econômica (e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles) trabalham para evitar um impacto mais profundo da crise, colocando o dinheiro público no mercado para reduzir o perigo de recessão.
Isto precisa ser feito. Se o presidente Lula, quando perguntado sobre a crise, responde “que crise?”, é outra história. Importante é saber que há gente no governo que não vive apenas dos discursos e das aparências, e sabe que é preciso trabalhar muito para que tudo que o Brasil conquistou nos últimos anos não seja perdido em uma intempérie do mercado financeiro.