O remédio genuinamente brasileiro para combater e eliminar os efeitos da caspa, desculpem, da crise econômica, é uma bem direcionada campanha de publicidade. Pelo menos tal é a intenção anunciada pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva, que deverá abrir o mês de dezembro inundando o País com mensagens veiculadas dia e noite nos meios de comunicação, a fim de mostrar que em Pindorama não estamos para brincadeiras. Seria cômico se não fosse trágico, mas o mote anunciado da campanha é transmitir segurança aos consumidores, sobretudo num período estratégico para os setores da indústria e do comércio, motivados pela necessidade visceral de torrar seus estoques, com ênfase na milagrosa palavra de ordem: comprar.

continua após a publicidade

Os profundos conhecedores das teorias semióticas ou de persuasão psicossocial das massas, a serviço do governo, sabem que é preciso lançar mão dos recursos mais sofisticados para convencer a população da não-existência de motivos para temores infundados quanto ao futuro. As mensagens publicitárias, logo se verá, serão dirigidas especialmente às pessoas ainda não endividadas (não houve engano na leitura!), instando-as a não desistir de fazer as compras de Natal, cumprindo a patriótica missão de evitar que a economia mergulhe numa indesejável recessão.

Jamais o consumidor brasileiro foi tratado com tamanha deferência pelo governo, que por via das dúvidas, pode até concordar com o senso comum quanto à vil exploração verificada na cobrança de juros nas operações de empréstimos bancários, cartões de crédito e crediários de longo prazo, embora nada tenha feito para mitigar as agruras dos consumidores de baixa renda, na maioria, vitimados pelo efeito colateral inevitável da inadimplência. Aliás, seria interessante saber o que a campanha publicitária do governo dirá particularmente aos endividados, que até esse momento vivenciam a desagradável experiência de serem rotulados como cidadãos de segunda classe.

Ironias a parte, está prestes a ser servida ao distinto público a mais nova poção mágica do governo Lula destinada a edulcorar uma crise de abrangência planetária, mas que por essas bandas deverá ser contemplada através das lentes dos óculos do doutor Pangloss, aquele personagem que enxergava todas as coisas tingidas com o agradabilíssimo tom de rosa. Comenta-se que os poucos convidados a ouvir o briefing da campanha feito pelo ministro Franklin Martins, da Comunicação Social, ficaram convencidos de que a população será muito bem informada sobre as medidas tomadas pelo governo para enfrentar a crise internacional, além da purgação cantada em prosa e verso sobre a monolítica solidez dos fundamentos de nossa economia.

continua após a publicidade

Lula não pode se dar ao luxo de permitir que a crise financeira contamine o ânimo da população, justamente nos dois últimos anos de mandato, quando a maioria das atividades do governo central seguirá à risca o vade-mécum que ensina tirar leite de pedra para iluminar o discurso da provável candidata à sucessão, ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. O antigo líder metalúrgico sabe como ninguém qual será o tamanho do rombo que o prolongamento da conjuntura econômica adversa trará sobre a pretensão de eleger a sucessora.

No entanto, o governo terá de trabalhar intensamente para combater o pessimismo já delineado no horizonte econômico, segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em parceria com o Instituto Alemão (Ifo). A Sondagem Econômica da América Latina acabou de divulgar o Índice de Clima Econômico, concluindo que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro poderá crescer entre 3,5% e 3,9% ao ano no prazo médio, graças às descobertas do pré-sal. Um desempenho apenas razoável em comparação com o crescimento esperado dos demais emergentes como China (7,6% ao ano), Índia (7,1% ao ano) e Rússia (5,1% ao ano). As taxas continuam altas, mas bastante inferiores aos níveis de crescimento dos anos recentes. No Brasil, o convencimento é que não haverá outro caminho senão molhar a camisa.

continua após a publicidade