Seria exigir demais, com os inevitáveis desdobramentos da crise financeira mundial, dentre eles o mais desgastante de todos (a volta do fantasma do desemprego), que a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não viesse a sofrer algum tipo de contratempo. A última pesquisa realizada pelo instituto Datafolha, cujos dados foram tabulados na quinta-feira, mostrou que a média de aprovação caiu de 70% em novembro do ano passado para 65% no final da quarta semana de março. Não estamos, porém, diante de nenhum desastre irreversível, embora não se escondam os vislumbres iniciais de futuras quedas, caso não se consiga debelar o azedume dos chamados indicadores econômicos.
A popularidade de Lula subiu de 48% em março de 2007, para 50% em novembro, 55% em março de 2008, 64% em setembro até bater em 70% de desempenho considerado ótimo/bom em novembro do ano passado, posição que nenhum outro ocupante da cadeira de presidente da República galgou desde o retorno das eleições diretas para o cargo.
Os elos mais resistentes da corrente de apoio ao presidente Lula se localizam na região Nordeste, onde houve um recuo de quatro pontos percentuais em relação à pesquisa anterior, mas mantendo folgados 77% de aprovação. Não seria importunação lembrar que mesmo a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, no momento atual, praticamente ungida como candidata da base governista à sucessão presidencial daqui a pouco mais de 20 meses, anda alardeando que nos estados que compõem a citada região se concentram 52% dos beneficiários do Bolsa Família e 40% de todo o contingente populacional atendido pelo Luz para Todos.
Tampouco seria ocioso invocar as recentíssimas declarações de Carlos Alberto Libânio Christo, o conhecido Frei Betto, sobre as intenções claramente eleitoreiras do projeto social de ajuda financeira mensal a 11 milhões de famílias, apesar das torturantes infestações de brotoejas que atacam a sensível epiderme de operadores políticos particulares do presidente Lula. As regiões Norte e Centro-Oeste entraram com 64% de aprovação (nove pontos a menos), o Sudeste com 60% (seis pontos a menos), e o Sul com 57% (menos dois pontos que na pesquisa anterior). Percebe-se que a popularidade de Lula está em queda em todas as regiões do País, conquanto os índices de aprovação do chefe do governo e de seu estilo de administrar continuem bastante elevados.
A pesquisa constatou, após alguma renitência, que a população finalmente veio a perceber os reflexos da crise financeira internacional, repassando as preocupações para a figura presidencial. No mês de janeiro, com a queda de 17,2% da produção industrial em relação ao mesmo período em 2008, os gastos governamentais com o pagamento do seguro-desemprego subiram 25% em janeiro e fevereiro passados quando comparados aos gastos do mesmo período no ano passado. Assim, não se requer nenhuma especialização na leitura das pesquisas de opinião pública, para concordar com a existência de um estrato populacional atingido pelos efeitos negativos da crise, transferindo para o presidente da República a insatisfação momentânea.
Subiu também o percentual dos que desconfiam que a crise fará piorar a situação interna. Na pesquisa anterior ainda eram 20%, mas esse patamar se elevou agora para 31%. Entre os que acreditam que o Brasil será pouco prejudicado pela crise, o pensamento negativo teve escassa repercussão, caindo de 58% para 55%. O Datafolha mostrou, ainda, que desde novembro despencou de 42% para 35% o percentual dos que concordaram com a estimativa autosuficiente do presidente Lula, sobre o efeito “marolinha” da crise financeira na economia brasileira, se é que, em algum momento, ela ainda tivesse forças para dar as caras em Pindorama. Em resumo, os especialistas ainda acham razões para pintar um céu de brigadeiro para o presidente Lula, cujo apoio popular não foi retirado na proporção da gravidade da crise. Mas o preferido para a presidência continua sendo Serra (41%), com Dilma fechando a raia com 11%, empatada com Heloísa Helena.