Uma parada totalmente fora dos padrões. Essa foi a explicação sintética, mas singularmente elucidativa do panorama aferido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em termos da retração da produção física e da utilização da capacidade instalada nos últimos meses do ano passado. Os dados foram corroborados pelos resultados da pesquisa permanente realizada pelo corpo técnico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O chefe da equipe de economistas da CNI, Flávio Castelo Branco, admitiu que “a crise chegou forte”, porquanto a queda dos indicadores do ritmo industrial prosseguiu pelo terceiro mês consecutivo.

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A indústria brasileira viu-se forçada a reduzir para 80,2% a utilização de sua capacidade instalada, tendo também cortado 8% das horas trabalhadas nas unidades industriais, comparados os números de novembro e dezembro. O quadro, além da intensidade, trouxe igualmente grande surpresa para os analistas, que já nem discutem a hipótese do País entrar em recessão, fato que deixa de ser uma probabilidade inquietante para ingressar no áspero terreno da realidade. A recessão, portanto, se concretiza quando em dois trimestres consecutivos é verificado um recuo da expansão do Produto Interno Bruto (PIB). Até agora não se conhece a opinião das autoridades econômicas sobre um quadro com séria inclinação para o descontrole.

Os percalços enfrentados pelos empresários do setor industrial, dentre os quais se destaca a existência de estoques elevados que obrigou a parada da produção e a liberação dos trabalhadores para o gozo de férias coletivas, culminou com a alternativa mais danosa, a demissão de milhares de empregados. Por esse motivo superveniente, os economistas passaram a considerar menos importante para compreender o contexto atual, a discussão sobre a recessão técnica. Entre novembro e dezembro de 2008, o faturamento da indústria aumentou 1,4%, ao passo que a atividade declinou 8% e o emprego, 0,5%.

A investigação conduzida pelo IBGE detectou que a crise financeira está presente em 25 dos 27 setores industriais acompanhados e, mais, que a retração verificada em dezembro foi a maior desde 1991, exatamente quando a instituição pública iniciou a respectiva série histórica. Em comparação com novembro, a produção industrial do mês seguinte sofreu um recuo de 12,4%. A queda torna-se um pouco mais expressiva (14,5%), quando o confronto da produção é realizado com o mesmo período de 2007. Num universo de 755 itens relacionados nas planilhas dos pesquisadores do IBGE, 70% acusaram quedas de produção: “Os dados de dezembro refletem o agravamento dos efeitos da crise financeira internacional. A crise está generalizada na indústria”, constatou André Macedo, economista da Coordenação de Indústria da instituição.

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Os registros coletados até setembro indicavam um ritmo de crescimento do setor industrial, que a partir de outubro passou a mostrar uma tendência para o lado oposto. Somente no último trimestre a queda acumulada chegou a 19,8%, fechando o ano com pequena alta de 3,1% no patamar de produção relativo a março de 2004. Quem mais sofreu com a crise foram os setores dependentes de crédito, como o de veículos automotivos, cuja produção teve um corte de 49,5% na comparação com dezembro de 2007. No cômputo geral, as montadoras de automóveis contribuíram com 3,4 pontos percentuais na queda total do setor industrial, com reflexos imediatos na concessão de férias coletivas, eliminação de turnos e demissões. Os efeitos negativos acabaram contaminando os fornecedores de peças e equipamentos para as montadoras, com destaque para a indústria metalúrgica básica e os segmentos de borracha e plástico. Também a produção de bens de capital (máquinas e equipamentos) sofreu queda de 22,2% em dezembro, maior retrocesso desde 1991.

Para os analistas, o desempenho resultou da associação entre a escassez de crédito e a crise de confiança dos empresários que cortaram os seus investimentos, alarmados com as evidências palpáveis de retração dos níveis de consumo. Qual é a saída?

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