Crime sem castigo

O enriquecimento ilícito é diretamente proporcional à cegueira da sociedade e à ineficiência, conivência ou associação de quem cria e opera os mecanismos de repressão dessa prática nefasta.

Por princípio, ele está intimamente ligado ao setor público e é financiado por superfaturamentos, propinas e desvios de verbas públicas. Para tentar evitá-lo, as legislações obrigam os ocupantes de cargos públicos a declararem suas propriedades e manda publicar os salários correspondentes a cada função. Assim é feito, mas, em alguns casos, os contribuintes ficam perplexos ao constatarem a situação de ?penúria? em que devem viver alguns desses abnegados homens e mulheres públicos, que devotam suas vidas ao povo, em troca de minguadas remunerações. No entanto, nenhum deles parece querer largar esse ?osso?… E ainda convidam parentes e amigos para ?sofrer? com eles!

Mas tanta ?devoção? parece ser ?abençoada? por alguma força mística, pois apesar de seus parcos proventos e exíguas posses declaradas, habitam muito bem, dirigem carros vistosos, usam roupas de grife, freqüentam restaurantes sofisticados, viajam para o exterior…

Como eles conseguem manter esse padrão de vida? Será algum milagre? Caridade de terceiros? Talvez seja uma herança recebida! Afinal, tem gente morrendo a todo o momento, inclusive de fome, de sede, por falta de atendimento médico ou por excesso de violência nas ruas. Também tem gente subempregada, mendigando, caindo na prostituição ou vivendo na ignorância, porque as verbas que deveriam garantir saúde, educação e segurança acabam nas contas bancárias dos corruptos, seus parentes ou ?laranjas?, aqui ou em paraísos fiscais.

Mas eles não se importam com isso! Afinal, não foram eles que inventaram as falcatruas. Eles são, apenas, a nova geração! Assim, na sua ótica distorcida, esse tipo de desvio – ?Roubo, não!? – não tem nada de mais, pois o erário não tem dono e se renova a cada exercício… Qualquer problema é só aumentar a tributação!

Graças a essa ?doutrina?, passada de pai para filho, o enriquecimento ilícito foi transformado numa verdadeira ?instituição? da política nacional! Pensando bem, não é uma instituição… É uma seita! Pois os corruptos formam uma espécie de irmandade, fanática, que reparte o ?pão? e o ?sangue? do povo entre si, enquanto este, pagão, vaga entre o limbo e o inferno!

O único ?pecado capital? – mas também muito comum em cidades do interior – de seus correligionários é cometer deslizes grotescos – entenda-se: ser filmado ou gravado quando pratica seus ?rituais?. Mesmo assim, as investigações tendem a ser lentas, prolongadas e desleixadas; e as punições, quando ocorrem, são brandas e contornáveis por artifícios baseados em falhas e omissões de leis capengas. Além disso, o mesmo dinheiro ilícito também pode servir para pagar a defesa, a liberdade ou, em última instância, a fuga! E sempre há alguém disposto a defendê-los, justificá-los e absolvê-los. O que dizer desses? São justos, bons samaritanos ou cúmplices? Estão com as mãos atadas ou com os rabos presos? Acreditam na conversão desses genocidas ou rezam o mesmo credo, só que em níveis diferentes?

O fato é que todo o dia surgem novos casos, cada vez mais acintosos e graves, envolvendo pessoas que, teoricamente, foram eleitas ou nomeadas para defender o povo e o estado de direito! Felizmente, as denúncias também aumentam… Mas enquanto as legislações forem ?caolhas?; a sociedade, ?míope?; e a justiça, ?cega?, vai ser cada vez mais difícil separar o joio do trigo, dentre os que legislam, governam e julgam neste País!

Adilson Luiz Gonçalves é engenheiro, professor universitário, articulista e poeta. E-mail: algbr@ig.com.br

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