Crescimento e embromação

Nunca neste País o ?espetáculo do crescimento? foi anunciado e trombeteado aos quatro ventos como no início de 2006. Os colunistas amestrados se encarregavam de divulgar a demagogia barata. Desconectados da realidade, o presidente Lula e os seus porta-vozes ficaram devendo aos brasileiros o anunciado ?espetáculo? ao final de 2006. Era propaganda enganosa.

O ano fechou com expansão do PIB de 2,9%, superando apenas o do Haiti (em guerra civil), que atingiu 2,3%. Entre os 18 países da América Latina foram superados pelos outros 16. Exemplificando: a Bolívia cresceu 4,1%; o México 4%; o Paraguai e El Salvador, 3,5%; a Guatemala, 4,1%; o Chile 5,2%; o Peru 6%; o Panamá, 6,5%; Costa Rica, 6,5%; República Dominicana, 5,5%; Argentina, 8%, e Venezuela, 7,5%.

O PIB (Produto Interno Bruto) é a soma das riquezas geradas pela produção de bens e serviços em um país durante o ano. Englobando setores expressados na agropecuária, indústria e serviços. No Brasil ele está letárgico e semi-estagnado há 23 anos. Mas nem sempre foi assim. No período democrático de 1946 a 1963, o crescimento foi de 7,1%; no regime militar de 1964 a 1984, foi de 6,2%; na redemocratização compreendendo 1985 a 1994, foi de 2,8%; e no período pós-real de 1995 a 2006, foi de 2,4%.

A visão paralisante na economia brasileira vem sendo estrutural e não será no ?gogó? da oratória de porta de fábrica que se transformará essa realidade. ?Espetáculo do crescimento? é conversa fiada pra boi dormir.

Nos últimos quatro anos, o Brasil viu ampliar a distância entre sua performance econômica e o resto do mundo. No período, a média de crescimento mundial foi de 4,8%, já o Brasil avançou 2,6%. Resultado idêntico alcançado no governo de Fernando Henrique Cardoso. O atoleiro do crescimento baixo vem sufocando as potencialidades brasileiras, independentemente de quem o governe. No pós-real, nos últimos 12 anos, os governos FHC e Lula foram incapazes de incorporar uma agenda de desenvolvimento ao País.

Não se deve por respeito à verdade buscar ?bodes expiatórios? externos para essa conjuntura adversa. A sua causa geradora é a própria gestão da nossa política interna que não enfrenta com coragem os impasses estruturais que travam o crescimento. Administra-se o dia-a-dia na mesmice covarde, buscando a popularidade fácil, visão típica do político tradicional.

Prevalecesse a visão moderna e de estadista, os últimos governos brasileiros buscariam sistematizar os verdadeiros entraves ao desenvolvimento consensualizados em objetivos muito claros. Vejamos alguns deles que operam como barreiras inexpugnáveis na contenção de um cenário de crescimento da economia.

Na infra-estrutura nossa situação é caótica. Nossas estradas, ferrovias e portos em termos de logística ficam a desejar. A recente crise aeroviária é um exemplo. Não descartando o fornecimento de energia no futuro nesse cenário. E os obstáculos se alargam quando se defronta com uma carga tributária próxima dos 40%, forçando o setor privado a ter menos recursos para investimento. A isso somam-se as taxas de juros reais mais elevadas do mundo.

Não pára por aí. A realidade cambial inibe e reduz a competitividade das exportações brasileiras, atingindo diretamente a capacidade de crescimento econômico. Não se pode tangenciar os gastos correntes do governo, que esterilizam recursos que deveriam se dirigir para investimentos públicos.

Sem o enfrentamento dessas e outras tantas questões estruturais, falar em ?espetáculo do crescimento? é sonho de uma noite de verão. Melhor seria festejar o ?espetáculo da embromação?, expressada nessa patética e acaciana afirmação do presidente Lula: ?Precisamos dar as mãos e sair para fazer o Brasil crescer, e aqueles que não quiserem, paciência, fiquem num canto chorando, se lamuriando?. Parece música ufanista da dupla Dom e Ravel, os menestréis da ditadura. Inacreditável.

Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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