Presidentes dos bancos centrais das maiores economias, incluindo o presidente do Banco Central (BC) brasileiro, Henrique Meirelles, passaram o último fim de semana em Basileia (Suíça), discutindo a multiplicidade de obstáculos enfrentados para contornar a crise financeira. O encontro foi convocado pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), uma espécie de banco central dos bancos centrais e contou, ainda, com a participação de representantes de organismos multilaterais de crédito como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial (Bird), entre outros.
A maior dificuldade encontrada pelas economias emergentes desde a eclosão da crise, em setembro passado, foi o encolhimento das linhas de crédito em escala jamais observada nos últimos 60 anos, levando o Banco Mundial a estimar em US$ 700 bilhões o montante que os países em desenvolvimento deixarão de levantar junto às economias industrializadas. Somente no que concerne a investimentos produtivos, os emergentes terão de arcar com um rombo de US$ 268 bilhões.
Uma proposta debatida na Basileia, segundo o noticiário, foi o estabelecimento de uma emissão de US$ 250 bilhões em papeis do FMI no mercado internacional, na forma de Direitos Especiais de Saque, com a finalidade de compor um novo fundo de socorro aos governos assolados por ingentes dificuldades. A sugestão deverá ser reapresentada na reunião do G20, em abril, na qual o Brasil pretende insistir na tese da reformulação do Fundo Monetário Internacional, visando conquistar para os países emergentes um espaço mais amplo de participação das decisões da entidade.
Nos meios governamentais da União Europeia (UE) aventa-se a possibilidade de injetar US$ 500 bilhões no caixa do FMI, a fim de assegurar ajuda aos mercados vulneráveis, embora a questão ainda em aberto seja identificar quem será o responsável pela fatura.
Dentre os países com maiores problemas na captação do financiamento de suas dívidas externas, no período de novembro a fevereiro, os países latino-americanos ocuparam os primeiros lugares. Um estudo do Banco Mundial, divulgado recentemente em Washington, assinala que o problema somente será resolvido a contento se os governos dos países ricos derem respaldo à atuação dos organismos multilaterais e às economias em desenvolvimento, além de envolver também o setor privado. Todavia, a instituição está prevendo a contração do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) global, pela primeira vez desde o término da Segunda Guerra Mundial. Até o mês de dezembro o Bird estimava para o exercício corrente um crescimento de 0,5%. A projeção feita pelos analistas com base na opinião dos presidentes de bancos centrais é bem menos otimista, apontando para a queda de 2% do PIB mundial.
Caso a escassez de dinheiro no mercado se aprofunde, o Banco Mundial não visualiza a possibilidade de as entidades financeiras disporem de recursos suficientes para alavancar os países agravados. O relatório do Bird enfatiza que quanto mais pessimista for o cenário maior a dificuldade de cobrir as necessidades de financiamento, levando os emergentes a arcar com repercussões negativas no longo prazo. Com efeito, os países ainda em condições de obter recursos no mercado financeiro já se deparam com custos de financiamento elevados e menores fluxos de capital, tornando inviáveis os planos de expansão.
A movimentação do comércio global, cujo ritmo é o mais lento dos últimos 80 anos, caminha na direção de um resultado pífio, afetando diretamente os países do Leste Asiático. O economista-chefe do Banco Mundial, Justin Yifu Lin, afirmou na capital norte-americana que as economias industrializadas deveriam gastar parte do valor de seus pacotes de estímulo financeiro nos países em desenvolvimento, objetivando um impacto econômico significativo. A percepção generalizada entre os especialistas é que poucos países, alguns da América Latina, conseguirão manter a cabeça fora d’água. No entanto, ninguém arrisca a dizer por quanto tempo.