Credibilidade na informação

O jornalismo quando se investe de autoridade pública perde credibilidade. Transforma-se em um apêndice do poder. Com efeitos dramáticos sobre aqueles a quem tem por objetivo fornecer a informação séria, isenta e verdadeira: os leitores.

A perda de credibilidade nos veículos de informação é muito grave e afeta diretamente a própria sociedade. Fabricar fatos e notícias destituídos de bases verdadeiras é um desserviço que se presta ao jornalismo, afetando a própria dignidade da profissão.

Nos EUA trava-se um salutar debate sobre a ação do jornalismo amestrado, onde o compromisso ético com a verdade é relativizado, prevalecendo a informação tendenciosa e, portanto, antijornalística. E no epicentro desse furacão está o prestigioso jornal The New York Times. Pela ação engajada de uma jornalista e colunista transformada em autoridade pública pelas suas ligações com o governo George W. Bush, o jornal veiculou, por anos, informações levianas e agressoras à verdade.

A jornalista Judith Miller, a partir de 2002, arvorou-se nas suas colunas a demonstrar que o Iraque detinha armas de destruição temíveis e que só restava uma ação preventiva ao governo norte-americano: invadir o país e destruir o colossal poderio bélico de Saddam Hussein. Fomentou a informação seguidamente, levando o NYT a assumir em editoriais a versão fabricada. Era, na verdade, uma porta-voz extra-oficial da Casa Branca.

As vinculações profundas e profissionais da jornalista Judith Miller com o governo Bush foram responsáveis pela delação de uma agente da CIA objetivando atingir o embaixador Joseph Wilson, nomeado para investigar a venda de urânio para o Iraque, fato negado no seu relatório final. A ira da Casa Branca e do vice-presidente Dick Cheney levou a jornalista a denunciar a esposa do embaixador, Valerie Palme, uma agente secreta do sistema de segurança dos EUA. O fato gerou uma reação em cadeia. E por afetar a segurança nacional, onde a identidade dos seus agentes deve ser preservada, a Justiça exigiu da jornalista a identidade da sua fonte de informação.

Convocada pela Justiça para nominar a fonte da informação responsável pela denúncia, a jornalista Judith Miller recusou-se. Invocando o legítimo direito da liberdade de imprensa (nos EUA não se aplica quando envolve a segurança nacional) manteve-se calada e foi levada à prisão. A imprensa norte-americana saudou, no início, sua posição de defensora da liberdade. Era um grande equívoco.

O jornal The New York Times, que no início defendia a sua profissional, constatou a partir do instante em que a própria fonte informativa se autodenunciou, que a jornalista era uma notável transmissora dos interesses da Casa Branca. A fonte era o chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, Lewis Libby.

E acredita-se que Karl Rove, o marqueteiro-mor de George Bush, seja a sua outra fonte privilegiada. A situação mudou radicalmente. A heroína da liberdade de imprensa era na verdade uma colunista amestrada dos interesses do governo norte-americano. Na Justiça os inquéritos prosseguiram e novas vítimas surgirão. O promotor Patrick Fitzgerald aprofunda as investigações.

O The New York Times, que teve a sua credibilidade atingida pelas informações veiculadas e que davam crédito à jornalista Miller, vem nos seus editoriais fazendo o ?mea culpa? e se desculpando junto aos seus leitores, já que foi expressiva a sua ação editorial ao assumir a posição de condenação aos poderosos arsenais de guerra de Saddam Hussein. O tradicional órgão de imprensa viu a sua credibilidade atingida pelo engajamento de autoridade pública de que a jornalista resolveu se investir.

A autocrítica do The New York Times, ao se desculpar diante dos seus leitores por assumir informações tendenciosas, é exemplar. A jornalista Miller, de quase heroína em defesa da liberdade de imprensa transformou-se numa vilã, repudiada pelo jornalismo ético e de notável compromisso profissional, onde a missão de informar com clareza e verdade é fundamento inegociável.

Não se pode transigir com a verdade. Não se deve fazer das letras impressas de um jornal uma tribuna de interesses que agrida a verdade. O exemplo que vem agora dos EUA ante a crise de credibilidade que arrastou o NYT deve merecer profundas reflexões na imprensa nacional.

Hélio Duque é ex-deputado federal.

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