Os rumores de alguns dias atrás se confirmaram e, com absoluta certeza pode-se afirmar que o governo passou a trabalhar com a perspectiva de contingenciamento no orçamento da União em até R$ 45 bilhões. A princípio se falou em algo em torno de R$ 37,2 bilhões, mas a conta foi refeita na medida que a crise extrapolou todas as previsões anteriores. Segundo se comenta em Brasília, não serão afetados somente os setores responsáveis pelas transferências constitucionais obrigatórias, a saber, saúde, educação e seguridade social.
A salvo dos cortes está também o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), sem o qual o governo Lula estaria privado de sua principal bandeira eleitoral e, nesse aspecto, confrontado com dificuldades ainda mais desafiadoras para levar a bom termo a campanha da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), pré-candidata da aliança governista à presidência da República, em 2010. O compromisso do Planalto é preservar os recursos para os ministérios da Saúde e Educação, além de garantir o fluxo da seguridade social e dos programas sociais, dentre os quais fulgura o Bolsa Família que presta ajuda financeira mensal a mais de onze milhões de famílias carentes.
Aliás, foi exatamente esse programa social que mereceu uma severa radiografia de Frei Betto, cuja importância deve ser ressaltada mesmo tendo o citado religioso se afastado do governo há vários meses. É, portanto, válido afirmar que suas declarações tenham agora maior repercussão que ao deixar por vontade própria o círculo íntimo do Palácio do Planalto, quando sempre se poderia alegar que o religioso se mostrava ressentido com o fato de ter perdido a condição privilegiada dos poucos assessores pessoais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Betto sublinhou que o Bolsa Família acabou perdendo o caráter emancipatório, pois no espaço de dois anos deveria garantir às famílias assistidas a faculdade de prover o próprio sustento, para se transformar num programa de evidente cunho eleitoral. Essa deve ter sido a razão exponencial para a exclusão do PAC do rol das intenções governamentais postas em banho-maria, em função dos cortes orçamentários.
O deputado Gilmar Machado (PT-MG), um dos integrantes da Comissão Mista de Orçamento, informou que a realização da maioria dos concursos públicos previstos deverá ser adiada, da mesma forma que novos reajustes salariais do funcionalismo terão de aguardar ocasiões menos conturbadas. No entanto, assegurou que os aumentos acertados no ano passado serão respeitados.
Ainda nos Estados Unidos, onde se encontrou no sábado passado, em Washington, com o presidente Barack Obama e, na segunda-feira, em Nova York, como principal expositor de um seminário sobre a potencialidade econômica do Brasil, o presidente Lula não alterou o tom otimista do discurso, nem mesmo ao ser informado de que o Boletim Focus, do Banco Central, reduzira para 0,59% a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), em 2009. Em meados de fevereiro, a estimativa das 80 instituições financeiras consultadas semanalmente pelo BC, situava o crescimento do PIB em 1,5%. Na primeira semana de março a previsão recuara para 1,2%, desabando para 0,59% na pesquisa da semana passada. Os analistas concordam que a abrupta retração de 3,6% do PIB no último trimestre do ano passado em relação ao trimestre imediatamente anterior, decerto contaminou a confiança de empresários e investidores quanto ao crescimento da economia brasileira no atual exercício.
Lula foi enfático na afirmação que o País retornará à trilha do crescimento já no segundo trimestre, devendo encerrar o ano com um resultado acima do esperado. Contudo, não se aventurou a fazer prognósticos numéricos, embora tivesse deitado falação sobre os inúmeros projetos financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, especialmente a construção de um milhão de casas populares. Em particular, Lula se referiu aos pesados investimentos que a Petrobras deverá iniciar para a retirada de petróleo do pré-sal.