Corruptos predadores

Aos 79 anos, o notável escritor expressa a sua indignação e repulsa aos homens públicos que conspurcam a representação popular. Ariano Suassuna completa o seu pensamento: ?A política é a arte de promover o bem comum. Então fico com vergonha quando vejo esses políticos traindo o povo brasileiro. Fico triste quando vejo esses corruptos aviltando o sonho da gente, que é tão bonito?.

O seu grito de protesto em defesa dos políticos sérios e decentes precisa ser multiplicado. É nesse segmento de homens públicos éticos e íntegros que reside a esperança de ver sepultada a realidade de apodrecimento do sistema de representação parlamentar. Hoje há uma parcela substancial interessada na filosofia do ?locupletemo-nos todos?, numa subversão dos valores morais. São corruptos predadores que buscam o mandato popular para avançar na corrida sem barreira no assalto ao dinheiro público. Daí a degradação moral do Poder Legislativo. Avançando com celeridade nos outros poderes. O recente episódio do Estado de Rondônia, onde Legislativo, Executivo e Judiciário integravam como um só corpo na disseminação da corrupção, é devastador.

Fixemo-nos no Congresso Nacional. Na história republicana a atual legislatura escreveu uma página de auto-enlameamento dificilmente superável ao longo dos tempos. Mensaleiros, sanguessugas, propineiros, falcatrueiros e outras tipificações integraram a bancada da grande corrupção. Na origem está a fragilidade dos partidos políticos, onde a falta de doutrina tem as portas escancaradas para os mais diversos tipos de aventureiros que vêem na política uma nova escala de negócios. A partir da década de 90, essa realidade tornou-se vitoriosa. Com a tese do ?parlamentar de resultado?, ficaram reduzidos à condição de despachantes, não sendo relevantes politicamente. Os partidos são secundários. Hoje 80% dos parlamentares são eleitos vinculados às estruturas regionais. O chamado voto de opinião, compreendendo os grandes nichos urbanos, responde pela eleição de 20%. O chamado baixo clero passou a ser majoritário, em função desse quadro.

O deputado federal Sérgio Miranda, do PDT, médico e excelente representante de Minas Gerais no seu 4.º mandato, constatava recentemente: ?Até a Constituinte a política foi comandada por idéias, gerando aquelas disputas que dividiam e apaixonavam. Fazia-se luta política, não luta de poder como hoje. As grandes questões daquele tempo produziam grandes debates. A partir do governo de Fernando Henrique Cardoso começou a sujeição do Congresso e o declínio da política, que com Lula chegou à decadência?.

É um diagnóstico terrível, mas rigorosamente verdadeiro. Hoje o Planalto passou a ditar a agenda do Legislativo. As medidas provisórias substituíram os legisladores. Em troca, os parlamentares-despachantes assumiram a condição de garantidores de obras, pontes, ambulâncias e propostas irrelevantes. Daí o corporativismo das bancadas não se expressar nos partidos. São as bancadas evangélica, ruralista, sindicalista dos bancos, católica, dos servidores públicos, que são o tom da vida parlamentar.

Ainda agora, no mais recente escândalo, a bancada dos sanguessugas apareceu em cena com a oferta de ambulâncias envolvendo uma centena de congressistas. Nela chama a atenção a maciça presença dos integrantes do núcleo evangélico. Somente da Igreja Universal do Reino de Deus são 17 parlamentares envolvidos, inclusive a deputada irmã do seu criador, o ?bispo? Edir Macedo. O vice-presidente da frente evangélica, deputado Pastor Reinaldo (PTB-RS), constatou: ?Infelizmente a carne fraquejou. É lamentável, mas aconteceu?.

O antropólogo Ari Pedro Oro, da Universidade Federal do RS, em pesquisa que vem fazendo junto a igrejas neopentecostais, constatou que nas pregações em defesa dos seus candidatos junto aos fiéis, enfatizam que a presença do demônio é tão forte no Congresso que até os homens enviados por Deus sucumbem.

Exorcizar o suposto demônio congressual é missão de milhões de brasileiros. E o voto é o instrumento dessa ação. Votando e apoiando aqueles que buscam mandato para servir à sociedade. E eles existem, em todos os nossos arremedos de partidos políticos.

Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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