Hélio Duque

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?A sociedade está sendo considerada consensualmente como uma vestal integrada por anjos e querubins, a turma do bem, politicamente correta, que enaltece a virtude e condena o vício.?

Carlos Heitor Cony

Quem viveu os idos de 1964 tem consciência, registra na memória: o primeiro grito contra a intolerância totalitária foi dado pelo colunista Carlos Heitor Cony, no jornal Correio da Manhã. O Brasil democrático teve nele a primeira voz de resistência contra os golpistas. Vivendo no Posto 6, do seu apartamento assistiu à ?heróica? tomada do Forte de Copacabana. Nas semanas e meses seguintes, em excelentes crônicas registrava o dia-a-dia do arbítrio. Elas foram reunidas no livro O Ato e o Fato editado pela Civilização Brasileira com estrondoso sucesso nacional.

Escritor notável, membro da Academia Brasileira de Letras e cronista do cotidiano do jornal Folha de S.Paulo, Cony mantém-se com ardor juvenil, há décadas, numa cruzada militante em favor dos valores humanistas e democráticos. Daí nos tristes tempos autoritários ter freqüentado os cárceres do regime militar. Ele relata que em uma de suas prisões um coronel lhe perguntou por que escrevia tanta besteira no jornal em que trabalhava.    

O seu despertar na luta contra o arbítrio conferia-lhe uma situação de excepcionalidade. Não era militante político ou ideológico. Não tinha qualquer tipo de vinculação com o governo derrubado em 64. Sua luta tinha a grandeza do humanista que não aceita a imposição totalitária. Fiel ao pensar voltairiano, do ?não concordo com o seu pensar, mas defenderei até a morte o seu direito de expressá-lo?.

Em 1965, estando no Rio de Janeiro, hospedado na Rua Júlio de Castilho, em Copacabana, na casa de um saudoso amigo e conterrâneo, o jornalista Fernando Leite Mendes, também do Correio da Manhã, tive um testemunho histórico. O jornal que nos seus editoriais ?Chega? e ?Basta? foi importante para a derrubada do governo de João Goulart, foi, também, o primeiro grande jornal brasileiro a condenar e denunciar os desvios golpistas. E o primeiro grito pela liberdade foi dado por Carlos Heitor Cony.

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Era um tempo em que para ser jornalista não se exigia diploma, mas inteligência, talento e coragem. E o Correio da Manhã os tinha em abundância. Jornalistas do nível de Osvaldo Peralva, Edmundo Moniz, Hermano Alves, Otto Maria Carpeaux, Márcio Moreira Alves, Gilberto Paim, Sérgio Bittencourt e tantos outros. E a respaldá-los a voluntariosa e irredentista Niomar Moniz Sodré, sua diretora-proprietária. Anos depois o histórico Correio da Manhã foi sufocado e extinto pelos governos autoritários.

No presente, Carlos Heitor Cony continua sua cruzada para a construção de um Brasil democrático, decente e altivo. Recentemente no jornal Folha de S.Paulo, escreveu um texto por título ?Sociedade, mídia e autocrítica?, que deveria ser motivo de profundas reflexões. Nele registra que, nos meios acadêmicos e midiáticos, falar em sociedade passou a ser uma palavra de ordem, buscando isolar o Estado, os poderes constituídos, a economia e até as manifestações culturais e artísticas.

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Daí perguntar: ?Afinal, que sociedade é essa sem o pecado original??. E a sua resposta é terrível:

?1 – Uma sociedade que foi a última, em escala mundial, a abolir a escravatura.

2 – Sociedade que mantém e fomenta uma distribuição de renda que os próprios governantes admitem como obscena.

3 – Sociedade em que a divisão maniqueísta dos bons e maus esconde preconceitos que vão da condição racial (a democracia das raças é uma ficção cultivada pela hipocrisia social) à condição econômica, criando e aumentando os excluídos dos bens e serviços indispensáveis à condição humana: saúde, educação e trabalho?.

Homem de imprensa e intelectual dos maiores da pátria, Carlos Heitor Cony, ao analisar o equívoco da simbiose ativa de sociedade e mídia, nocauteia: ?Uma sociedade que se expressa pela mídia, que não recebeu mandato algum, a não ser aquele que a si mesmo se atribui. Sociedade e mídia que se dobraram ao arbítrio de um regime militar de 21 anos, o espaço de toda uma geração que, com exceções de praxe, se refugiou-se nas canções e poemas de protestos, na estrada da paz e do amor dos movimentos tidos como contestatórios?.

A argúcia de Carlos Heitor Cony retratou uma questão que é de fundamental valor para o futuro da vida brasileira. Como ele próprio afirma, deve ser entendida como uma autocrítica de um profissional da mídia que está na estrada há 59 anos.

Sociedade e mídia não podem se transformar nos arautos de uma nova ordem, até porque não têm a legitimidade que imaginam possuir. Basta ver na mídia televisiva a arrogância dos ?justiceiros de fins de tarde? nos programas neo-informativos policiais. E nas grades dos jornais da noite, a auto-suficiência de apresentadores e apresentadoras lendo textos incisivos em nome de uma suposta sociedade. A simbiose sociedade-mídia passou a ser um tipo de palavra de ordem onde ninguém contesta, alguns por medo, outros por alienação e parcela substancial por serem beneficiários dessa farsa.

É importante, como registra Cony, saber que saem da sociedade os Marcos Valérios, os Malufs, os Delúbios, os Dudas e os congressistas que desonram o mandato.

Naquela crônica revi os formidáveis textos do bravo jornalista que há quatro décadas deu o tiro inicial para a redemocratização do Brasil. Deveria merecer, pelos arautos faladores em nome da sociedade e pela mídia que parece querer se adonar do monopólio da informação parcial, aprofundadas reflexões. E a necessária autocrítica, hoje matéria-prima em falta na vida brasileira. Onde muitos se consideram donos da verdade, monopolizadores da virtude e proprietários da certeza. A falta de autocrítica social pode levar a sociedade a um fulminante colapso. Moral.

Hélio Duque é ex-deputado federal.