O deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE), membro de um dos partidos da base aliada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ex-ministro do atual governo, não tem usado evasivas para escamotear o que todos já sabem: é candidato à Presidência da República em 2010. Aliás, pela terceira vez consecutiva desde 1998. Ciro não se faz de rogado em abordar o tema quando provocado pelos repórteres, respondendo com uma franqueza, de resto, inusual de parte da maioria dos homens públicos brasileiros.
Para o político cearense, protagonista de uma carreira pública ascendente que o levou da Prefeitura de Fortaleza ao governo do Ceará e, daí, ao Ministério da Fazenda nos últimos meses do governo Itamar Franco, é praticamente impossível sustentar a idéia de que Lula conseguirá manter coesas as vertentes partidárias que atualmente integram a aliança, com vistas ao apoio de um candidato único à sucessão. Ciro não tem dúvida que a candidata preferida pelo presidente da República é a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, mas ela não deverá receber isoladamente o apoio dos demais partidos engajados ao arco governista.
O raciocínio do deputado Ciro Gomes, afinal um quadro bastante credenciado do Stablishment político, lança luz sobre a situação vivida pelo Partido dos Trabalhadores (PT) quanto à reconhecida dificuldade de apresentar um nome de maior ressonância para disputar a indicação com a ministra Dilma Rousseff. A verdade é que o ambiente interno do petismo ortodoxo está em fermentação desde alguns meses, quando pipocaram em Brasília os primeiros sinais da animação de um grupo interessado em implantar uma nova hegemonia sobre a máquina partidária, grupo este liderado pelo ministro Tarso Genro (Justiça), mesmo de forma discreta, ventilado como a alternativa mais adequada para liderar uma chapa petista autêntica.
À época, vários colunistas políticos escreveram que a insatisfação do núcleo puro do partido, ou seja, aqueles políticos que conseguiram se salvar das profundas avarias causadas à nau petista pelo escândalo do mensalão, um cadáver ainda insepulto, era tema de convergência entre os ministros Tarso Genro, Patrus Ananias e Luiz Dulci, além de muitos outros militantes de prestígio na governança interna do partido em todos os estados. Dava-se também como certo que o triunvirato estava disposto a envidar esforços especiais, no sentido de semear obstáculos de natureza política na trajetória aparentemente tranqüila da ministra-chefe da Casa Civil.
Não demorou para que a reação do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo branda e elegante como deveria ser, se tornasse pública mediante os mesmos colunistas. Consta que o presidente não gostou da movimentação de alguns de seus ministros (alguns se apressaram a afirmar que jamais cogitaram algo semelhante), e a suposta frente petista afligida pela visível simpatia presidencial à candidatura de Dilma, se encolheu. O ministro Tarso Genro passou a gastar seu latim na não menos explosiva questão da tortura como crime imprescritível, ressuscitando um assunto que inquieta especialmente os chefes militares. A atuação do ministro passou a ser enfocada como uma tentativa de se manter na superfície do debate sucessório. Nos últimos dias, Tarso voltou à berlinda a cavaleiro de um assunto palpitante ao entregar ao presidente do Congresso Nacional, senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-PB) o texto do projeto de reforma política, cuja versão final, a pedido do presidente Lula, foi concluída sob sua supervisão.
Este é o caldo que começa a fumegar em torno da sucessão presidencial marcada para outubro de 2010. A base governista, segundo a opinião do deputado Ciro Gomes, dificilmente terá candidato único a julgar por sua decisão pessoal de voltar a disputar a eleição. Pelo tom convicto de suas palavras, o deputado parece falar de algo que conhece de perto.