Contrato de gestão

Passaram apenas poucas horas e a confirmação da suposição generalizada nos mercados financeiros do País foi estampada em primeira página pelo jornal Valor Econômico, na edição correspondente a esse final de semana pascal: “A troca de comando no Banco do Brasil (BB) foi uma vitória do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e do PT, partido que desde o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentava assumir o comando do maior banco público do continente. A possível ingerência política na instituição foi rapidamente percebida pelo mercado: a cotação das ações do BB caiu 8,1% na Bovespa ontem (quinta-feira)”.

A substituição do então presidente Antonio Francisco de Lima Neto por Aldemir Bendine, vice-presidente de Cartões e Novos Negócios, se deveu em grande medida à resistência em aceitar sugestões explícitas para a redução dos juros dos empréstimos concedidos pelo banco. O argumento de Lima Neto era evitar resultados negativos no desempenho da instituição pública. Contudo, a versão corrente é que o ministro Guido Mantega não tinha bom relacionamento com Lima Neto e, assim, a medida inevitável foi colocar no cargo um colaborador mais propenso a seguir instruções superiores. Segundo se soube, Bendine assinou um contrato de gestão com o Ministério da Fazenda, pelo qual assumiu o compromisso de administrar o BB com a meta precípua de colocá-lo na linha de frente da diminuição do custo do dinheiro e da expansão do crédito.

Tal determinação, diga-se a bem da verdade, é um das principais ferramentas do governo Lula na tentativa de arrefecer os efeitos ruinosos do desemboque da crise financeira na economia real (lembram-se da marolinha?) e do empilhamento de más notícias, dentre as quais se destacaram as restrições ilimitadas na obtenção de crédito, o corte na produção industrial e nas vendas do comércio, além do fechamento de milhares de postos de trabalho. O presidente da República justificou a troca de comando no BB com a “obsessão” pela redução do spread bancário, momentos antes do ministro da Fazenda anunciar a destituição do então presidente do Banco do Brasil.

Para o jornal paulista, a demissão de Lima Neto estava acertada desde fevereiro, mas a batida do martelo só ocorreu na véspera da viagem de Mantega para Londres, onde participou do encontro do G20, no início desse mês. O ponto de fervura da insatisfação da cúpula governamental diante da pertinácia do então presidente do BB em refugar as orientações do Planalto, deu-se quando o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, mostrou ao chefe do governo que depois da crise o BB aumentou os juros e os spreads em percentuais maiores que os praticados pelo sistema bancário privado. E mesmo ao reduzir as taxas, o movimento foi considerado insuficiente, fato que levou o ministro Guido Mantega a entrar de sola na briga por uma política de cortes mais relevantes juros pelos bancos públicos.

Conforme a leitura do mercado, a mudança na direção do Banco do Brasil não foi recebida com agrado pelos investidores, tanto que a queda mais expressiva (8,1%) anotada quinta-feira última na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), deu-se exatamente em relação às ações do BB. Os analistas e consultores, de imediato, repercutiram os temores do mercado quanto à ingerência política na administração do banco, chegando alguns a agourar o risco do novo presidente ser usado como “marionete” pelas autoridades financeiras, adotando medidas que possam comprometer a rentabilidade da instituição. Dito de outra forma, isto significa que o BB pode ser forçado a emprestar mais, para maior número de clientes e a taxas mais convidativas. Um dos analistas consultados pelo Valor Econômico resumiu a questão de forma inapelável: “Não consigo recomendar a compra de um papel com esse nível de interferência”.

Dono de lucro retumbante em 2008 (R$ 8,8 bilhões), a temporada de vacas gordas que o governo Lula augura para o Banco do Brasil poderá reverter em espantosa inadimplência. Quem viver verá.

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