A corrupção está para o sistema democrático como os cavaleiros do apocalipse estão para o fim dos tempos: ambos são arautos das sombras. A comparação não é nova nem original, mas serve para reforçar a importância que devemos dar para o relatório do Banco Mundial, que mostra que o índice de combate à corrupção no Brasil caiu, em dez anos, de 59,7 pontos para 47,1. Trata-se de um dado estatístico que confirma o que todo brasileiro percebe. Vivemos tempos negros em relação à ética e à moralidade. Por isso se impõe urgência no resgate e valorização desses princípios, principalmente porque precisamos definitivamente romper com o subdesenvolvimento no nosso País.
É verdade que não cabem generalizações, mas o Brasil precisa de um choque de moralidade que alcance cada um de nós no desempenho das ações cotidianas, de forma a exibirmos exemplos positivos capazes de influenciar os demais membros do corpo social. Além disso, numa economia vinculada a fatores externos, essa reformulação da conduta das pessoas e da organização do Estado guarda relação com a eficiência das empresas – isto é, com o desempenho da economia em geral.
Essa busca de padrões mais elevados foi assinalada pelo professor Fábio Konder Comparato, ao ponderar que nosso sistema político continua caracterizado por intermediação para obtenção de favores, reproduzindo o modelo pré-republicano. O autor do mais sólido ensaio sobre Ética publicado no País defende, como remédio, o aprofundamento da participação do cidadão no sistema democrático, num papel que o tornaria cada vez mais protagonista da cena política.
A formulação de um futuro melhor para a sociedade brasileira está vinculada à nossa capacidade de assegurar boa governança. A avaliação consta de outro estudo do Banco Mundial, publicado no início desta década, que situa o Brasil na septuagésima posição de um ranking sobre o combate à corrupção que avaliou 160 países. Os autores concluíram que há duas alternativas possíveis para o País: ?Se a corrupção se agravar, atingindo nível extremo, a renda per capita brasileira ficará 75% menor…?. ?Se, na direção contrária, alcançarmos o nível de honestidade da Inglaterra, a renda será quatro vezes maior.? Ou seja, dependendo da nossa atitude moral, agravaremos o nosso subdesenvolvimento ou ingressaremos no primeiro mundo.
Sabidamente, os desvios de conduta têm efeito devastador na criação de um ambiente propício ao desenvolvimento. A tese pode ser comprovada ao se analisar a experiência do Sistema Fiep, que sofreu um desfalque de quase R$ 40 milhões entre 1995 e 2003. Com a moralização da gestão dos recursos, a entidade retomou o papel de alicerce da indústria e pode investir R$ 70 milhões para ampliar, equipar, modernizar e profissionalizar seus serviços. Com isso, os atendimentos prestados ao parque industrial paranaense aumentaram até cinco vezes sobre números de quatro anos atrás.
O exemplo demonstra que uma economia competitiva e moderna demanda níveis éticos elevados e instituições públicas revestidas de qualidade. Elas devem ser caracterizadas pela efetividade do sistema legal; pela eficácia dos processos públicos; responsabilidade técnica e credibilidade de seus dirigentes, e, em especial, boa proteção contra corrupção, clientelismo e nepotismo. É preciso um choque de gestão a fim de minimizar custos não visíveis da corrupção em termos de perda de oportunidades, elevação do risco-país e comprometimento do futuro.
Nosso modelo e, sobretudo, os costumes de governança precisam mudar. Por isso, tenho perfilado, ao lado de outras lideranças empresariais e da sociedade, pela reforma do Estado brasileiro, via transparência e comprometimento dos ocupantes de cargos públicos com a ética pessoal e institucional; enfim, mais responsabilidade democrática.
Rodrigo Costa da Rocha Loures é presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República.