Contingências da política

No dia 1.º começa o segundo mandato do governador Roberto Requião, reeleito em segundo turno de votação por escassa margem sobre o senador Osmar Dias. Depois da redemocratização, isto é, desde o restabelecimento da unção dos governadores estaduais pelo voto direto, jamais houve disputa tão renhida.

Richa ganhou com facilidade de Saul Raiz; Alvaro praticamente não teve adversário na pessoa do deputado Alencar Furtado; Requião teve alguma dificuldade contra José Carlos Martinez, mas venceu bem no segundo turno; Jaime Lerner derrotou Alvaro e Requião também em duas eleições sucessivas, chegando agora a vez de Requião, que em 2002 derrotara Alvaro e, quatro anos depois, repetiu a dose suplantando Osmar.

É válida a observação, para muitos de triste memória, e, para outros, mera contingência da política, que o cenário paranaense tem sido dominado pelos mesmos personagens desde o longínquo ano de 1983, quando o ex-prefeito londrinense e senador José Richa, candidato natural do PMDB velho de guerra, despejou do poder a brigada neísta que havia governado desde os primórdios do ciclo dos generais, com a nomeação de Emílio Gomes para concluir o mandato de Parigot de Souza, por sua vez substituto do cassado Leon Peres.

Requião é detentor do mérito louvável de ser o primeiro a governar o Paraná por três vezes pelo voto popular. Richa governou uma vez e perdeu na segunda tentativa, quando não passou do 1.º turno. Alvaro contabiliza uma derrota a mais que Richa (perdeu para Lerner e Requião) e o atual governador também amargou uma derrota por pequena margem para Lerner.

Já na eleição anterior havia surgido um nome novo, aliás, um político jovem, o deputado estadual Beto Richa, hoje prefeito da capital. Para o próximo embate dá-se como certa a (re)candidatura do senador Osmar Dias, com grande chance de êxito se uma grande orquestração começar a ser delineada desde agora a seu favor, tendo em vista que àquela altura estará bastante fortalecido o cacife do herdeiro de José Richa.

Beto contará, então, com o não desprezível potencial de ter definido sua personalidade política no curso da até agora excelente gestão na Prefeitura, apresentando-se à sociedade como credor da cobiçada expectativa de ser um dos poucos nascidos aqui, cuja trajetória, em determinado momento, decerto haverá de cruzar com o Palácio Iguaçu.

Bordejando o alambrado, como diria Brizola, em curva ascendente no gráfico da política, desponta o deputado Gustavo Fruet, também carta de altíssimo naipe nas discussões em torno da escolha dos candidatos a governador em 2010. Juntamente com o nome apontado pelo PMDB, serão esses que deverão lutar pelo voto dos paranaenses. O eleitor deverá examinar também a penca de candidatos petistas, sopesando a simpatia loura de Gleisi Hoffmann e o temperamento mercurial de Jorge Samek, além de Paulo Bernardo, André Vargas e Angelo Vanhoni. Haverá outros?

Para o PMDB a escolha do candidato à sucessão não é tarefa das mais agradáveis, e o motivo é a falta de quadros exibida pelo partido. A rigor, não há no bivaque peemedebista nenhum nome citado espontaneamente pelos eleitores, quando se trata do assunto, mesmo abstraindo a enorme antecedência. Os mais chegados ousam afirmar que o governador tem inclinação pelo irmão Maurício e espera vê-lo candidato, embora tenha o outro, Eduardo, também encantado pela suave brisa do poder.

Entre os deputados estaduais e federais do partido dificilmente se tiraria um com razoáveis condições de enfrentar a disputa. No secretariado, nem se fala. É forçoso admitir que Requião aparece entre os políticos não afeitos à tarefa de burilar novas lideranças para a vida pública. O governador deve ter experimentado a conseqüência dessa espécie de absenteísmo ao queimar o bestunto na escolha dos futuros secretários.

Sua quota pessoal, portanto, se restringe ao círculo familiar, a menos que os bajuladores venham a incluir na relação os servidores que se engalfinham pela preferência do chefe. Aí, a lista seria longa e guardaria espaço para uma chusma de esforçados escaladores do Olimpo.

Ivan Schmidt é jornalista.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região!
Seguir no Google