Ivan Schmidt
Fazer uma pequena pausa e, em rápida avaliação, constatar que algumas das maiores potências mundiais têm dirigentes do gabarito de Bush, Putin e Sarkozy, e que nas bordas mais ou menos afastadas desse cenário de ostentação econômica e industrial pululam figurantes do tipo dos irmãos Castro, Chávez, Kirchner, Lula e Morales, lembrando também os incontáveis mandarins encastelados nos países asiáticos e africanos, é sucumbir ao peso duma realidade inóspita outrora descrita por alguém como ?a colheita do sofrimento?.
O extraordinário pensador moderno Ralf Dahrendorf, que foi diretor do St. Antony?s College, em Oxford, Inglaterra, além de antigo membro do Parlamento e ministro do governo alemão, escreveu que ?democracia significa muitas coisas para muitas pessoas, e se a palavra for tomada literalmente, significa algo que provavelmente não pode existir?, mesmo admitindo a possibilidade de alguma situação ?na qual se pudesse dizer que o povo governa?.
Diz ele, apoiado em Rousseau, Kant e Hegel, que se a democracia for considerada um substituto para as instituições, permanentemente recriada por um discurso sem restrições, ela leva o cético a pensar na anomia, na tirania da maioria e também na autocracia pura: ?Onde não há poder domesticado, um poder rude está provavelmente a ponto de instalar-se; onde não há instituições, pretensões arrogantes têm o domínio?.
Max Weber é um autor com presença certa na formulação do pensamento de Dahrendorf, sobretudo pela preferência a temas como a burocracia e o parlamento. Segundo Weber, a burocracia é uma séria ameaça, pois pode paralisar os mediadores entre o povo (demos) e o poder (kratia), o parlamento, reservando a este uma apreciação pouco lisonjeira: ?O parlamento pode tornar-se um mero blablablá no qual os representantes dão vazão a seus ressentimentos e desejos, mas do qual nada resulta?.
Analisando, mesmo de modo ligeiro, a conjuntura política mundial, somos forçados a abrir espaço para pensar na alocução de Dahrendorf sobre a constituição da liberdade, para ele, assentada em três elementos indispensáveis: governo da lei, democracia e liderança. ?O governo da lei faz das pessoas cidadãos. A democracia capacita os cidadãos a fazerem sua voz ser ouvida. Ela lhes dá o direito e, nos períodos de crise, o dever de dizer o que querem e o que não querem. O lado positivo da democracia, o que as pessoas querem, se adapta melhor aos discursos festivos sobre a cultura política, mas o lado aparentemente negativo, o controle, a crítica e o protesto, pode muito bem ser mais importante para a liberdade. A liderança mantém as sociedades em movimento. Ela as ajuda a evitar que fiquem aprisionadas na jaula da burocracia; e também atravessa o discurso perpétuo da democracia total. Pela interação de democracia e liderança, as sociedades civis permanecem abertas.?
Também o magnífico Karl Popper presta significativa ajuda a Dahrendorf, sobretudo na assertiva de que vivemos todos num mundo de incerteza, no qual ninguém sabe com exatidão qual é o caminho certo para seguir adiante, ?e aqueles que alegam saber podem muito bem estar errados?. A declaração nos brinda com um símile adequado da estrita materialização da parábola bíblica dos cegos sendo guiados por outro cego.
Um inimigo pernicioso, a autocracia moderna, é denunciado pelo filósofo: ?Isso, mais do que o autoritarismo, é o que encontramos na América Latina e na Ásia hoje em dia. É o governo dos autodesignados, mais do que das elites tradicionais, que tentam invocar valores antigos e, ao mesmo tempo, canalizar as riquezas recém-encontradas para um número limitado de bolsos. Uma política deliberada de provimentos (econômicos) crescentes é associada a restrições igualmente deliberadas das prerrogativas cívicas. Há muitas indicações de que este tipo de regime não pode durar por muito tempo. Uma geração ou mesmo duas é obviamente o bastante para aqueles que sofrem; mas o risco, seja da aberração totalitária, seja da abertura democrática, nunca está muito longe?.
O mundo político corresponde ao modelo proposto pelo mercado, com estruturas complicadas e igualmente imperfeitas que, apesar da aspereza do desafio, devem ser diligentemente transformadas em direito à partilha dos benefícios do progresso.
Ivan Schmidt é jornalista.