Conspiração do silêncio

O dever elementar do intelectual é a inquietação, formulando sempre novas indagações a cada resposta obtida. Não pode ser passivo ante a realidade. Quando abdica do ato de pensar com liberdade, torna-se irrelevante. Não pode ser sujeito de certezas, mas de dúvidas permanentes, sob pena de ver esterilizada a sua capacidade criativa. Quando isso ocorre, o prejuízo não é apenas individual, mas de toda a sociedade. Exceção nos sistemas totalitários, de qualquer vertente ideológica, onde a submissão religiosa às vontades da ordem dominante submete o homem de pensamento ao oficialismo. O silêncio dos intelectuais em qualquer conjuntura é patético e abominável.

Felizmente, no Brasil, se parcela da intelectualidade optou pelo silêncio, outro expressivo núcleo não se demite da condição de livre-pensador. Dentre outros é o caso do professor da USP Ruy Fausto, para quem ?as posições políticas dos intelectuais brasileiros em geral me assusta. A tendência é falar em um fechamento global da situação, e numa suposta impossibilidade em tomar qualquer atitude politicamente acertada e produtiva?. O notável escritor e autor de vastíssima obra literária, em que se destaca Viva o povo brasileiro, João Ubaldo Ribeiro vai na mesma direção, afirmando: ?Nosso comportamento no geral apático, resignado, submisso, subserviente perante a autoridade e, ouso dizer, desfibrado e passivo, parece que somos um povo ovino?.

Os dois autores desses conceitos, aparentemente extravagantes, não se recusam ao ato supremo de pensar e retratar a realidade brasileira. E o fazem com indiscutível competência. Recentemente, lendo primorosos textos desses intelectuais, motivou-me a extrair partes dos seus pensamentos, de grande valor para uma reflexão sobre a atual conjuntura nacional. Pela sua relevância é importante conhecer alguns desses conceitos críticos, nesse tempo de apagão mental que vem marcando a vida institucional brasileira.

O professor Ruy Fausto, titular emérito de filosofia da USP, muito antes de o Supremo Tribunal Federal comprovar pela aceitação das denúncias a existência do mensalão, atestava:

1. ?O assunto corrupção é sério demais para ser considerado de um modo ligeiro, para quem acredita na democracia. Lamentavelmente, parte da intelectualidade do PT tomou a defesa do partido, e portanto dos corruptos, e pôs a culpa na imprensa pelo escândalo, como se ela tivesse montado o essencial.?

2. ?Mostra a total desorientação de parte da intelectualidade petista. Não se defendem princípios, defende-se um partido. Essa atitude mistificou parte da opinião universitária, que não acredita no mensalão, como se tratasse de um problema de crença ou de fé. Se o mensalão era quinzenal, ou semestral, isso interessa pouco, o essencial é que houve corrupção, e grande.?

3. ?Com isso não quero dizer que nada preste no PT. Há certo número de pessoas honestas e com convicções ali. Só que são minoritárias. Veremos se ainda podem desempenhar algum papel.?

4. ?As pseudo-social-democracias nacionais não têm nada de social-democratas. É preciso entrar em contato com o que existe de melhor em vários grupos ou partidos. Há gente politicamente sã, mesmo se minoritária, um pouco por todo lado, inclusive fora dos grupos ou partidos. Veríamos o que seria possível fazer a médio prazo. Uma revista política e teórica que fosse nessa direção representaria um passo importante, no sentido da preparação de uma reorganização política.?

O escritor João Ubaldo Ribeiro ataca na mesma direção, com enfoque próprio, afirmando que a bandidagem geral assola a nação e pergunta: vamos engolir tudo calados outra vez? No seu estilo sóbrio e sarcástico, o seu ataque é frontal:

1. ?Somos um rebanho que nem é mais necessário cobrar docilidade, como debocham da gente o tempo todo, mentindo, achando que somos imbecis e curtindo com a nossa cara. O comentário geral é de que o povo não respeita mais os governantes, especialmente deputados e senadores. Acho isso engraçado, pois, na minha opinião, é exatamente o contrário. Eles é que não nos respeitam e não estão querendo nem saber o que pensamos.?

2. ?C + O = PB, eis a nossa equação, onde C é de carneirada, O é de otário e PB é povo brasileiro. Posso estar errado. Todo dia lembro da admoestação do presidente quanto a presumir a inocência do acusado até que seja aprovada a sua culpa. Bem, pelo menos eu resolvi não ficar calado. Calar é aceitar e isso ocorrendo nunca mais levo a sério reclamação ou queixa de ninguém, vou concluir que reclamam, mas gostam.?

É o grito preso na garganta de dois intelectuais engajados no profundo respeito aos mais nobres valores de uma sociedade democrática e pluralista. Alvíssaras.

Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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