Quando a seleção brasileira de futebol perdeu, de forma constrangedora, as copas do mundo de 1950 e 1954, o cronista Nelson Rodrigues cunhou uma de suas frases geniais: ele afirmou que o brasileiro sofria do “complexo de vira-lata”. Mal explicando, é como se fôssemos indignos de grandes conquistas, por conta de certa falta de atitude. Isto mudou com os cinco títulos mundiais – ou não mudou?
Quando chegam os Jogos Olímpicos, o Brasil sempre tem candidatos fortíssimos para as medalhas de ouro. Mas, no final das competições, ficamos em uma posição marginal. Em Atenas, nas últimas Olimpíadas, conquistamos cinco ouros, o nosso máximo. Para esta, a de Pequim, os mais cautelosos previam seis subidas ao topo do pódio.
Uma delas, esta quase certa, era do judoca João Derly. Duas vezes campeão mundial, ele era favoritíssimo ao ouro, mas não durou por duas lutas. Perdeu para um rival que já tinha sido vencido pelo atleta gaúcho algumas vezes. Mesmo assim, perdeu. E não foi sequer à repescagem. Derly, depois das lutas, admitiu que não teve a atitude necessária nas Olimpíadas.
Derly foi um exemplo. As meninas da ginástica, apesar do brilhantismo da chegada em cinco finais, fraquejaram na prova da trave de equilíbrio – como se fosse um dominó, um erro foi gerando outro nas atletas. Tantas falhas que levaram as ginastas às lágrimas. A seleção de basquete feminino também não teve a força para vencer a Coréia do Sul e a Austrália. E qual é o problema?
Sabe-se, que mesmo com pouco incentivo, há boa preparação. Nossos atletas chegam aos jogos com o mesmo nível técnico de outros países – excetuando-se fenômenos como Michael Phelps ou Rafael Nadal. O que falta para encarar as outras nações de igual para igual é a força mental.
Confiança, responsabilidade e atitude se conseguem também com treino. O trabalho da psicologia do esporte faz a diferença a longo prazo, e precisa entrar definitivamente no planejamento das confederações e dos atletas. Com cabeça boa, não há complexo de vira-lata que resista.