Pois o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado, que desde o início da legislatura atual, em fevereiro, sequer havia sido indicado, acaba de eleger seu presidente. Trata-se do senador Paulo Duque (PMDB-RJ), personagem bastante conhecido nos meios políticos fluminenses desde os anos 60s, quando na condição de deputado estadual relatou a comissão parlamentar de inquérito (CPI) que investigou as denúncias da eliminação de mendigos por afogamento, no Rio da Guarda, inocentando o então governador da Guanabara, Carlos Lacerda, pretensamente o mandante dos crimes.
Duque, que completou 82 anos de idade, é antigo conhecido e aliado do senador José Sarney (PMDB-AP), tendo chegado ao cargo de presidente do conselho de ética por interferência direta do senador alagoano Renan Calheiros, não apenas senhor de baraço e cutelo da bancada peemedebista na Casa, como o parlamentar mais poderoso do Congresso Nacional, conforme atestam dez entre dez cronistas com experiência suficiente para deitar falação sobre os bastidores da enevoada engrenagem de nosso sistema bicameral.
Ao ser proclamado presidente, o senador Paulo Duque desincumbiu-se da primeira responsabilidade ao declarar-se inteiramente comprometido com os interesses do PMDB, do qual recebeu o cargo. A declaração foi entendida como pronta resposta aos que esperavam ação intimorata em defesa do Senado da República, instituição que experimenta hoje a situação mais deplorável de seu longo passado, face às denúncias diárias de irregularidades cometidas pelo atual presidente da instituição, ao com seu consentimento. “Não existe independência total na política”, confessou serenamente o encanecido parlamentar sorteado pela supina conveniência do grupelho que ora comanda o Senado, para conduzir os trabalhos de apuração das denúncias contra Sarney.
Aliás, o entusiasmo do senador pela função a ele atribuída foi imediatamente concretizado na transferência inexplicável do início dos trabalhos para o dia 5 de agosto, às 15 horas. Ainda se deu ao luxo (ou seria deboche?) de indagar se todos os indicados para o conselho concordavam com o dia e hora da reunião. Nesse clima de desaforo e humilhação a que está sendo garroteada a sociedade, sobretudo porque as ofensas se originam nos compartimentos diretivos da esfera mais elevada do Legislativo, que apesar dos pesares ainda é chamada de Câmara Alta, cantam vitória os integrantes do PMDB encandeados pelas ordens advindas dos senadores Renan Calheiros e José Sarney. As raríssimas exceções ficam por conta de Pedro Simon (RS) e Jarbas Vasconcelos (PE), que admitem ter passado da hora do colega José Sarney pegar o boné e refugiar-se na mansão de sua propriedade numa das praias mais aprazíveis da capital maranhense.
Para os peemedebistas que não fazem outra coisa senão amplificar a vulgata baixada por Renan Calheiros, a confiança é que o senador Paulo Duque mande para o arquivo as acusações contidas na representação protocolada contra Sarney pelo PSOL e, de cambulhada, as três denúncias subscritas pelo senador Arthur Virgílio (AM), líder na bancada do PSDB. No caso de arquivamento caberá recurso, mas se ocorrer o improvável estará derribada a cancela para uma eventual cassação do mandato do presidente da Casa. Os ex-senadores Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho que em ocasiões recentes vivenciaram situações similares, preferiram o expediente da renúncia para não perder os direitos políticos.
Duque recebeu os votos de 10 dos 15 senadores indicados para formar o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, antecipando a influência de Calheiros sobre a base governista. Cogitou-se a indicação do independente Antonio Carlos Valadares (PSB-SE) a fim de conferir uma aura de lisura à investigação dos desvios imputados a Sarney, com apoio de Aloizio Mercadante (PT-SP). O PMDB fiel aos grotões de Alagoas, Maranhão e Amapá falou mais alto. Não é debalde que Lula considera alguns senadores excelentes pizzaiolos.