Clima de entrega

A julgar pelas notícias procedentes da capital da República, dada à variedade de suas marchas e contramarchas, o mínimo que se pode afirmar é que um clima de mexericos está instalado entre políticos, executivos de empresas privadas, dirigentes de importantes setores da administração pública, advogados, lobistas e jornalistas, estes, ao que se diz à boca pequena, contratados a peso de ouro para escrever artigos ou plantar informações destinadas a criar um pouco mais de instabilidade num cenário bastante parecido com um mercado persa.

O esperado depoimento do banqueiro Daniel Dantas, controlador do Grupo Opportunity, à Comissão Parlamentar de Inquérito das Escutas Telefônicas Ilegais, conhecida como a CPI dos Grampos, à qual se apresentou guarnecido por um habeas corpus que o autorizava a ficar calado, se teve algum mérito, foi o de botar mais lenha na fogueira do disse-que-me-disse reinante no País. Tirando o corpo fora das ribombantes disputas empresariais a ele atribuídas, com a frieza calculada adquirida ao longo de muitos anos de experiência em mega-operações financeiras, nas quais sempre ganhou o dinheiro que quis, Dantas virou o foco das atenções para o delegado Paulo Lacerda, atualmente diretor-geral da Agência Brasileira de Informações (Abin).

Dantas acusou o ex-superintendente da Polícia Federal, colaborador bastante próximo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva por ter sido o chefe de segurança das duas últimas campanhas presidenciais, de estar por trás da ação encomendada à Polícia Federal com a finalidade de prendê-lo. A ação teria sido motivada pela disputa empresarial capitaneada pelo Banco Opportunity até ser alijado, com a participação do Citybank, Telecom Itália e fundos de pensão para a aquisição do controle acionário da Brasil Telecom. No contexto de seus comentários, o banqueiro negou ter sido informado da investigação pelo ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), a quem contratara para reforçar a equipe de advogados e consultores jurídicos, com a incumbência específica de negociador com os fundos de pensão.

Entrementes, de forma bastante estranha a um homem acostumado a guardar na memória até os pormenores mais ínfimos de formidáveis movimentações financeiras, não foi capaz de lembrar o nome da pessoa que o informou sobre a ação da Polícia Federal e, que a mesma havia sido encomendada pelo delegado Paulo Lacerda. O informante misterioso revelou, porém, que se tratava de represália a uma reportagem publicada pela revista Veja, dando conta da existência de contas abertas no exterior em nome de Lacerda, que de imediato atribuiu ao banqueiro a origem dos boatos.

Segundo Dantas, o governo alimentou a hipótese de que a compra da Brasil Telecom pela Telemar foi dificultada pelo Opportunity. Para desfazer a impressão errônea o grupo optou pela estratégia bem-sucedida na avaliação do controlador, de cientificar a venda de sua participação na BrT aos principais agentes públicos envolvidos (BNDES e Anatel). No depoimento, sobrou ainda para o delegado Protógenes Queiroz, chefe da Operação Satiagraha, que depois de minuciosa investigação desembocou na execução dos mandados de prisão contra Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta, assinados pelo juiz federal Fausto Martin de Santis. Poucas horas depois as prisões foram anuladas pelo ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF).

O delegado, durante o interrogatório de Daniel Dantas, ainda não se sabe como, fez uma série de confidências ao interrogado e este transferiu à CPI duas das pérolas que, dessa vez, sua memória registrou: o policial pretendia ir fundo na compra da BrT pela Oi e investigar “até o fim” a vida de Fábio Luiz da Silva, o Lulinha. Não é segredo que a Gamecorp, empresa da qual um dos sócios é o filho do presidente, recebeu R$ 5 milhões da Telemar, não por coincidência proprietária da poderosa Oi. O clima de entrega é total.

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