O advogado Fábio Konder Comparato, professor da Faculdade de Direito da USP, ao proclamar que fora da política não há salvação, lembrava os fundamentos da democracia ateniense na velha Grécia. Citando que, durante a guerra do Peloponeso, Péricles pregava com orgulho: ?Nós somos o único povo a pensar que um homem alheio à vida política deve ser considerado não como um cidadão tranqüilo, mas como um cidadão inútil?.
Milênios nos separam de Péricles. Já o seu conceito sobre a omissão da sociedade na defesa dos valores da tolerância e da participação democrática tem atualidade perene. A inutilidade do cidadão, quando omisso e passivo, é acontecimento gravíssimo na vida de uma nação. Infelizmente, por variados fatores de origem histórica, no Brasil é muito grande a parcela de uma cidadania inútil. Ao eleger a desimportância da política, no cotidiano e na tranqüilidade das suas vidas, fornecem inconscientemente o principal combustível para o baixo nível e a decadência da representação popular.
Veja o exemplo do que vem ocorrendo com a classe média brasileira. Ela é o pulmão das sociedades modernas e democráticas sendo fator de estabilidade, equilíbrio e de desenvolvimento. Nas últimas duas décadas, 10 milhões de brasileiros foram expulsos da classe média. Ou mais diretamente: nos anos 80s, do século passado, representava 31,7% da população economicamente ativa. Em 2005, representava 27,1%, uma retração alarmante.
O empobrecimento e a proletarização de vastos segmentos da classe média brasileira é um retrato sem retoque. Sem emprego e renda, perdeu ?status? e conheceu uma brutal redução no seu padrão de vida. O baixo crescimento econômico que vem ocorrendo na economia brasileira nos últimos 25 anos é o principal fato gerador.
O Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas acaba de publicar estudo onde destaca que entre 2002 e 2006, os 50% mais pobres aumentaram de 10,1% para 12,2% sua participação na renda nacional. Já o núcleo dos 10% mais ricos teve uma redução de 49,1% para 46,8%. Os números são positivos enquanto redistribuição de renda, mas escondem uma realidade dramática.
A classe média, naquela classificação, localiza-se no segmento dos mais ricos. E foi exatamente em cima da sua renda que se expropriou, para transferir aos mais pobres. Os verdadeiramente ricos não tiveram a sua renda diminuída, ao contrário. O governo Lula fez uma opção clara nos dois extremos: os ricos e os pobres. Os primeiros, a partir do sistema financeiro e as suas aplicações milionárias, nunca ganharam tanto dinheiro. Os segundos, através do assistencialismo e dos programas sociais, obtiveram expressiva elevação da sua renda familiar.
Ocorre que essa opção, justa e humana, não se verificou pela tributação das grandes fortunas, mas pelo confisco da renda da classe média. O tratamento recebido por esse segmento foi e vem sendo de eficiente marginalização. O desemprego nunca atingiu tão forte e fundo em suas famílias. Nunca pagou tanto imposto para ver um retorno efetivo daquilo que tem direito, seja na educação, na saúde, na segurança e setores afins, negado.
Deve-se concluir que a classe média brasileira vive um momento de inferno astral. Ficar na passividade absenteísta é apoiar incondicionalmente o massacre de que é vítima. E somente pela mobilização política é que pode reverter essa realidade. Ou então assumir o sábio conceito de Péricles, fazendo da passividade inútil uma opção de vida.
Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.