O ilusionismo transformista é gerador de uma mágica que anestesia variados setores da sociedade. Gera uma espécie de reflexo pavloviano, onde as próprias vítimas se alienam na inconsciência reflexa de um silêncio obsequioso. Em sendo verdadeiros os conceitos acima emitidos, adaptando-se ao Brasil seria a situação real da sua classe média, hoje imprensada na pirâmide social brasileira. Na ponta superior as fortunas crescem em ritmo chinês, concentrando a renda com grande dinamismo. Na base da pirâmide, até três salários mínimos, um relativo ganho real para quem está empregado e pelos beneficiários dos programas sociais assistencialistas.
A classe média brasileira está em ativo processo de encolhimento. A expressão majoritária nesse segmento é aquele com renda entre R$ 3.000 até R$ 10.000. A chamada classe média alta tem renda acima de R$ 10.000 e é menos afetada por múltiplas razões. O preço pago pela classe média no seu conjunto de alta, média e baixa nas últimas duas décadas vem sendo altíssimo.
O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão oficial agregado ao Ministério do Planejamento, vem de publicar um relatório devastador sobre trabalho e renda no Brasil na década 1995-2005. A renda média real dos assalariados teve uma redução de 11,4% no período. Observem que em 1990 a participação do trabalho na renda nacional era de 52%. Em 2005 caiu para 40%, numa queda livre onde a força de trabalho mais qualificada passou a ser mal remunerada, ante o desemprego estimado oficialmente em 10%. Afetando os jovens e profissionais de nível superior.
O economista Márcio Pochmann, da Universidade de Campinas, é taxativo: ?A baixa expansão social originária do ciclo da industrialização brasileira, o baixo crescimento, a maneira como o Brasil se insere na economia mundial, especializado na exportação de bens de baixo valor agregado, não tem como criar emprego de qualidade?. Atestando essa realidade, o Centro de Estudos de Economia do Trabalho da Unicamp, na 5.ª Carta Social e do Trabalho, recém-divulgada, completa: ?Entre 2000 e 2006, 93% dos empregos criados pagavam até dois salários mínimos?.
O encolhimento da classe média brasileira tem sua origem na redução do crescimento econômico presente na economia brasileira nas últimas décadas. Não reage porque está em um estado de torpor e confusa. Em todo o mundo, com o emprego e a empregabilidade conhecendo uma realidade complexa nesse tempo de grande avanço tecnológico, o crescimento das classes médias é ascendente. Pela simples razão de ser fator de equilíbrio político, econômico e social no capitalismo moderno.
Infelizmente no nosso País, não somente o baixo crescimento angustia esse segmento, mas a perspectiva de ver o futuro dos filhos se estreitar pela falta de emprego. A isso some-se a carga de tributos que é obrigada a pagar aos governos federal, estadual e municipal. O Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário vem de comprovar que a classe média brasileira, em 2007, trabalhará 156 dias somente para pagar imposto. A carga tributária anual será de 42,7%. Assim distribuída: sobre a renda, 19,7%; sobre o consumo, 20%, e sobre o patrimônio, 3%.
Já no vértice da pirâmide social a situação é totalmente diferente. A brutal concentração de renda gerada pelo governo desmistifica a afirmação do presidente Lula: ?A maior política de distribuição para os pobres e a melhor política social do mundo, nós estamos fazendo?. E nos quatro anos do primeiro mandato, o governo pagou R$ 600 bilhões de juros para os investidores e especuladores compradores dos títulos oficiais.
O vice-presidente José Alencar é uma voz de bom senso nesse deserto de resistentes: ?Se tivéssemos reduzido a taxa nominal de juros à metade da praticada, haveria economia de R$ 300 bilhões que poderiam ser usados para a saúde, educação, infra-estrutura, uma vez que temos um orçamento muito enxuto?.
O que se constata de maneira irretocável é que o governo brasileiro é autor e gestor de um grande programa de concentração de renda, alocando esses recursos financeiros nas mãos dos detentores de grande capital. Na base da pirâmide, o assistencialismo do Bolsa Família e congêneres. O seu custo médio foi dentre R$ 10 e 12 bilhões, por ano, no primeiro mandato Lula. Já no vértice da pirâmide, o ganho anual especulativo foi de R$ 150 bilhões. Ambos estão felizes. Já a classe média brasileira vê o seu horizonte de esperança se estreitar, a prevalecer a política oficial de pai dos ricos e mãe dos pobres. E algoz assumido dos assalariados da classe média.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.