O difícil acesso à educação, ao longo da sua formação histórica, é uma das matrizes para a desigualdade na distribuição da renda nacional. A educação no Brasil sempre foi pouco valorizada como fator fundamental para o desenvolvimento. A exclusão social é, também, decorrência do analfabetismo funcional e do baixíssimo nível de instrução de mais de 60% da população nesse início do século XXI. Nos 300 anos de Brasil colônia, a formação educacional primária e secundária era restrita aos estabelecimentos mantidos pelas ordens religiosas. No Império, de 1822 a 1889, o quadro se altera timidamente, com o surgimento de escolas públicas.
O atraso e o descaso com a formação educacional era imenso. Somente no século XIX são criadas as primeiras escolas de nível superior. Destacadamente os cursos de Direito, em Pernambuco e São Paulo, e Medicina, na Bahia e no Rio de Janeiro. Antes disso, a formação universitária só era possível na Europa, fundamentalmente em Portugal. A busca da educação de qualidade para os filhos além fronteiras era meta perseguida pelos colonizadores mais esclarecidos e endinheirados. Tinham a clara idéia de que um futuro decente de uma nação passa pela universidade.
Na República, nas primeiras décadas, não foi diferente. Historicamente, outras precederam, mas somente em 1934, com a criação da Universidade de São Paulo, o Brasil passou a ter uma estrutura e concepção de universalidade científica, pela importação de notáveis intelectuais e pesquisadores europeus. Era o núcleo gerador da universidade brasileira. Nos últimos 70 anos é que a vida acadêmica alicerçada em universidades passou a integrar o cenário da formação superior no Brasil.
Para efeito comparativo, a Universidade de Harvard está completando 371 anos. Na Europa e na Ásia são centenárias, chegando algumas a ultrapassar a idade de um milênio. Decorre dessa tradição, no presente, que das 30 melhores universidades do mundo, 22 são norte-americanas, quatro inglesas, duas japonesas, uma canadense e uma suíça. O professor norte-americano S. Weinberg, prêmio Nobel, em 2001, testemunhava: ?Estou convencido de que sem as nossas grandes universidades de pesquisa teríamos de nos manter nos EUA plantando soja e mostrando o Grand Canyon a turistas alemães e japoneses?.
O histórico das universidades públicas brasileiras (não obstante o processo educacional ser deficiente) oferece um saldo relativamente positivo. Não decorre do apoio integral do poder público, mas da dedicação idealista dos seus professores e pesquisadores. O último trabalho do Instituto de Altos Estudos da Universidade de Shangai, considerado dos mais importantes do mundo na classificação do ranking internacional de produção científica, aponta as 500 melhores universidades mundiais. No Brasil, 5 universidades integram a seleta lista: Universidade de São Paulo, Universidade de Campinas, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Estadual Paulista e Universidade Federal de Minas Gerais. A USP obteve a melhor classificação na América Latina. O 1.º lugar é de Harvard.
Investir em educação de qualidade é o que leva ao progresso e ao desenvolvimento. Sem dinheiro é impossível. Harvard, além dos recursos próprios, administra um fundo de doações feitas por ex-alunos e beneméritos de 30 bilhões de dólares. Como decorrência, já recebeu 45 prêmios Nobel. O seu nível de excelência decorre da percepção cultural que remonta as origens colonizadoras anglo-saxônicas. Sabedoria e cultura na colonização ibérica não era prioridade. Ex-aluno jesuíta, relembro o conceito do padre Antônio Vieira: ?Eles não vêm aqui para o nosso bem, mas pelos nossos bens?. Mentalidade que mudou muito pouco, ao longo dos séculos.
As universidades públicas brasileiras chegam a tirar leite de pedra para desenvolver pesquisas inovadoras. O preconceito contra o pesquisador entre nós ainda é dominante. Nesse cenário trágico, o trabalho que a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) vem realizando é muito positivo. Nos últimos 30 anos o número de trabalhos publicados por pesquisadores brasileiros aumentou de 0,3% para 2% de todo o conhecimento científico mundial.
Ao colocar cinco das suas universidades públicas entre as 500 melhores do mundo, há de se reconhecer que é muito pouco para o nosso País. Contudo, se mensurarmos a conjuntura adversa proporcionada pelo poder público em todos os níveis, onde a mentalização burocrática atropela o saber e a inteligência criativa dos cientistas e pesquisadores, é altamente positivo. É fruto da doação e dedicação de profissionais mal-remunerados (onde a carência material invade bibliotecas e laboratórios de pesquisa), mas imbuídos do espírito superior de melhorar a sociedade com os seus saberes e que continuam lutando por um mundo melhor.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.