Chore, seu filho está sendo filmado!

Os idosos é que têm sorte, pois a vida não poderia ser menos interessante para os jovens de hoje. Eles acordam e, antes do segundo bocejo preguiçoso, sabem que seus pais estão a todo o momento de olho, parecendo loucos para achar objetos ilícitos nas mochilas e dentro de revistas. A vigília está em todo lugar: no cinema, na boate, no parque da cidade, no hall do prédio, no elevador, no celular… Agora, a última moda em se tratando de vigília está nas salas de aulas, que estão virando mais um tipo de carceragem. E – o pior – com o aval de todos que deveriam zelar pelo bem-estar da juventude: pais e professores.

Com a desculpa de que pretendem acabar com a violência nas escolas, muitas instituições de ensino vêm pondo em prática uma forma de proteção digna de uma prisão: a colocação de câmeras dentro das salas, que são o último reduto que o jovem tem para ser ele mesmo. Pai zeloso, por favor, coloque-se no lugar de seu filho e pense: o que você sentiria se colocassem câmeras em cima da sua mesa de trabalho? E dentro do seu banheiro? E no seu quarto e de sua esposa?

É ingenuidade pensar que o jovem vai deixar de fazer determinada tarefa (mesmo que ilegal) por causa da presença de uma câmera. Por acaso os rebeldes do passado se intimidaram com punições? Prisões? Retaliações? Muito pelo contrário: quanto mais lhes impunham limites, mais os jovens de antigamente procuravam formas de quebrá-los.

Todo pai que conhece o filho sabe que ele não tem o mesmo comportamento dentro de casa e na sala de aula. No lar, quem manda são os mais velhos, ao passo que nos colégios, entre os colegas, o jovem é quem dita as regras. Mas isso, ao contrário do que muitos querem crer, não é uma forma de aprender a ser rebelde, mas é a maneira que o filho tem de construir seu modo de ser gente, de se incluir no mundo, de aprender a criar, impor, contestar e negar limites. As pressões oferecidas pela sociedade do colégio, formada por estudantes de várias idades e formas de pensar, atuam na formação da personalidade do jovem.

Se nem na escola o aluno tem condições de se mostrar como tem vontade, imagine onde ele vai extravasar essa ânsia inerente aos menores de 21 anos. Não estou defendendo que deixem os estudantes brigarem ou que o professor seja condescendente com roubos e demais sinais de marginalidade que assolam vários colégios. A questão defendida é que vigiar o aluno o tempo inteiro não é, de forma alguma, a melhor maneira de acabar com os problemas.

Ok, querido professor. Já sabemos que a violência anda assustadora no Brasil, que muitos pseudo-estudantes entram na escola para fazer de tudo – menos estudar – e que o seu salário é tão baixo que parece ter recebido aumento pela última vez no tempo do Império. Ah, também sabemos que há muitos jovens que já saem de casa com vontade de ser cruéis (pois do contrário não teríamos os terríveis casos de assassinatos em escolas norte-americanas) e que a sua intenção não é prejudicar a formação do aluno, mas ajudá-lo a aprender a ter limites – além, claro, de proteger todos que estudam debaixo do mesmo teto.

Mas você acha mesmo que uma câmera vai auxiliar o aluno a deixar de ter vontade de roubar ou brigar? Claro que não! A vontade vai permanecer e ele apenas procurará uma nova forma de fazer o ato longe dos holofotes. Ou seja: o jovem não aprende o que é certo ou errado. E a educação, prioridade em toda escola que se preze, deixa de ser posta em prática em nome de uma ilusória manutenção da ordem. E se formos falar de uma violência maior, praticada por verdadeiros marginais que invadem escolas, pense novamente: câmeras intimidam esse tipo de gente?

E há ainda que se contar com casos tão absurdos provocados pela presença de câmeras que chega a ser constrangedor descrever. Um programa de televisão mostrou, no fim de semana passado, um pré-adolescente que foi chamado à direção porque uma câmera o flagrou jogando bolinhas de papel na classe. O garoto teve que passar pela vergonha de ser chamado na frente dos colegas e de conviver com o estresse da possibilidade de uma suspensão (já que ele não tem muita idéia, ainda, do que pode ou não ser considerado grave) apenas porque fez o que você, eu, nossos pais e avós fizeram: bolinhas de papel.

A violência está grande, sim, e a sociedade e poder público precisam encontrar uma forma de reduzir os crimes nas escolas. Mas não é tolhendo o jovem de sua pequena liberdade que a situação será contornada. Câmeras nos corredores e até no hall do banheiro podem ser boas medidas, por exemplo, para reduzir brigas e furtos. Mas na sala de aula já é demais. Aliás, presença de câmeras nem sempre é sinônimo de competência na segurança. Basta citar o caso da estudante baleada dentro da universidade no Rio de Janeiro, em 2003. Até hoje, ninguém foi preso, apesar de as câmeras terem flagrado o momento do tiro. E a estudante continua tetraplégica.

Ariane Holzbach é jornalista no Rio de Janeiro. E-mail: arianediniz@uol.com.br.

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