China: Goulart e Geisel

As relações comerciais Brasil-China vão de vento em popa. Estima-se que em 2009 os chineses devem superar os EUA como grandes fornecedores do Brasil. As relações econômicas e comerciais entre os dois países deverão se aprofundar com grande dinamismo nas próximas décadas. Superando um passado de conflitos políticos e ideológicos que marcaram as duas nações nos últimos 60 anos. A superação desses óbices não foi fruto da ação de um governo determinado, mas de um longo processo que tem o seu ponto de partida em 1961.

Isolada pelos EUA e pela União Soviética, a República Popular da China, dirigida por Mao Tsé-Tung, recebe a visita em agosto de 1961 do vice-presidente do Brasil, João Goulart, em Pequim. Até hoje os chineses da velha-guarda são gratos a essa pioneira iniciativa brasileira. Com a renúncia de Jânio Quadros, ascende à Presidência da República o gaúcho Goulart. Com o restabelecimento das relações diplomáticas, a economia brasileira via uma porta se abrir, não unicamente para o café, seu principal produto de exportação à época. Missões comerciais realizam visitas e exposições nos dois países.

No Rio de Janeiro, em março de 1964, no Pavilhão São Cristóvão, a China promovia exposição comercial onde se destacavam tratores e máquinas agrícolas para irrigação. No dia 5 de abril de 64, os nove diplomatas que coordenavam o evento são presos e levados a salas de tortura pela polícia política do Estado da Guanabara. O comandante das torturas era o delegado Cecil Borer. Meses depois, foram libertados pela ação do advogado Sobral Pinto.

O governo Castelo Branco rompe relações com a China. O Brasil passa a reconhecer a China Nacionalista (hoje Taiwan), que constrói em Brasília monumental embaixada.

Em 1975, o general Ernesto Geisel, na Presidência da República e numa ação pragmática, restabelece relações diplomáticas com a República Popular da China. Rompe com a China Nacionalista, ocupa a sua embaixada e a entrega ao governo chinês, que a transforma em sua sede diplomática em Brasília. O Brasil corrigia em tempo um lamentável equívoco histórico.

A ironia milenar chinesa se faria presente. Visita o Brasil para as demarches finais o vice-ministro de Relações Exteriores, que é recebido com honras de Estado. Era precisamente um dos nove chineses terrivelmente torturados como ?subversivos? em 1964. Nos últimos 31 anos, Brasil e China vêm construindo uma rota econômica e comercial de mútuo interesse.

A evolução do comércio com aquele país até 2006 foi sempre favorável, com expressivos ?superávits?. Infelizmente nesse iniciante 2007 já se pode afirmar que a tendência será invertida. E no médio e longo prazo essa realidade se aprofundará. E a equação é simples. Os produtos brasileiros exportados para o mercado chinês têm baixo valor agregado. Os principais são: minério de ferro, celulose e madeira, ligas de ferro, petróleo, couros e peles, fumo em folhas, motores de automóveis e bens agropecuários. Enquanto importamos da China: computadores e peças, circuitos integrados, motores e geradores elétricos, compostos químicos, transmissores e receptores para telefonia celular, brinquedos e tecidos.

Até agora a economia brasileira teve na exportação de commodities poderosa alavanca como fornecedora daquele mercado asiático. Por serem produtos de baixo valor agregado, não criam empregos na escala desejável e consolidam um desemprego estrutural. Quando temos a necessidade de absorção dinâmica de mão-de-obra.

Precisamente aí é que reside o ?nó górdio? da economia brasileira. Nos últimos anos o nosso comércio externo vem registrando expressivos números na balança comercial, com saldo altamente favorável. Mas lamentavelmente não decorre da exportação expressiva de bens manufaturados, com elevado nível de empregabilidade. Decorre das exportações de commodities com incidência limitada na geração de emprego. Exportamos matérias-primas e muitas vezes as importamos industrializadas, gerando emprego em outros mercados.

O exemplo que vem da China é a comprovação dessa realidade. Nele o Brasil deveria se mirar para fazer da retomada do desenvolvimento o grande desafio do presente. Não existe outra alternativa.

Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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