Cenários pouco verticais

Com a previsível derrubada da verticalização, pela qual nos estados os partidos não serão obrigados a seguir a aliança adotada no plano federal, a campanha eleitoral de 2006 se transformará no banquete ?PTgruélico? mais extravagante dos últimos tempos. Na gigantesca mesa estendida nas 27 unidades federativas do País, os convivas se refestelarão com comidas exóticas e bebidas de mistura pouco recomendável, como a parceria entre siglas abrigadas nos espaços extremos e opostos do arco ideológico. Para garantir continuidade ao projeto de poder, o PT velho de guerra tirará do baú garruchas enferrujadas, que usará sem cerimônia para puxar apoios de todos os lados, na maneira velhaca da República Velha. Nem por isso poderá se garantir que o pleito será uma ?geléia geral?. Pois um formidável contraponto, com fundamento na contrariedade e indignação de núcleos centrais da sociedade, abre perspectivas para se construir uma decisão de voto balizada em valores racionais e éticos.

A verticalização não é condizente com a fragilidade e o caráter efêmero de partidos do tipo catch all (?agarra tudo?), como dizem os ingleses. Contornou-se sua aplicação, em 2002, com traições, promessas de cochichos, votos-camarão (cortando a cabeça de chapa) e outros requebros. Se isso não é mais necessário, o personalismo sairá fortalecido. Candidatos puxarão as campanhas, deixando os escopos partidários em segundo plano. Promessas não cumpridas serão escondidas, como já se pode verificar, pelo programa partidário petista, esta semana, quando ficaram de fora temas como Fome Zero e Primeiro Emprego. Mas os cenários abertos, a partir dessa constatação, não atenderão plenamente às combinações acertadas entre parceiros e partidos, a começar pelos interesses do PT, que enxerga na queda da verticalização uma forma de adensar as alianças e apoios ao projeto de reeleição de Lula.

O primeiro cenário divisado por Lula e o PT é o do PMDB cooptado. O interesse petista é mais pelo tempo que a sigla dispõe do que pelo ideário que pode oferecer. Lula e seus estrategistas esperam que os governistas do PMDB joguem o partido em seu colo. Ora, difunde-se no PMDB a tese de que candidaturas a presidente e a governador constituem a única forma de fortalecer o partido, pelo aumento de bancadas em todos os estados. A decisão está nas mãos dos governadores, que controlam as bases. A maioria dos seis governadores é francamente favorável à candidatura própria. As chances de uma aliança no plano federal com o PT são pequenas, mas a porta estará escancarada caso Lula esteja em alta em maio/junho de 2006. Fosse mantida a verticalização, a aliança com o PT seria ainda mais difícil.

A queda da verticalização, se, de um lado, deflagra certo caos na ordem partidária, propicia, de outro, o adensamento do espírito de corpo de grandes entidades mais homogêneas, no caso, PT, PSDB e PFL. Ou seja, com taxas menores de dissonância interna, esses partidos poderão cercar mais suas bases, integrando-as na fidelidade a seus candidatos. Os beneficiários do cenário são, pela ordem, Lula, o candidato tucano e o candidato pefelista. Juntando-se ao PSDB, porém, o PFL ajudará a formar um quadro de intensa polarização entre situação e oposição, tornando mais complexa a tarefa de uma terceira candidatura – a do PMDB, por exemplo – furar o espaço dividido entre duas bandas. Ou seja, na moldura de polarização entre duas forças, uma terceira enfrentará ameaça de ?cristianização?.

A pasteurização política criada com o fermento de partidos assemelhados e amorfos provoca na sociedade certa apatia, que se expressa em descrença, decisão de anular o voto ou afastamento da classe política. No vácuo formado, aglomeram-se núcleos organizados, profissionais liberais, organizações não governamentais, o pequeno e médio empresariado e amplos setores de formação de opinião. Reside nesse cenário a viabilidade de uma candidatura enganchada em idéias fortes. O espaço do voto racional no País tem crescido de maneira geométrica, principalmente nas cidades grandes e médias, onde a qualidade de vida passa a ser referência central para efeito de voto. Nesse buraco, caberia uma argamassa composta por um apelo envolvendo reforma urbana, tributos, segurança e emprego, tudo calcado em dados reais e soluções factíveis. Seria esse um forte contraponto à verticalização.

As situações expostas ocorrerão à margem da ambientação social, cujos limites serão dimensionados pelo Produto Nacional Bruto da Infelicidade (PNBInf), que é a miscelânea das angústias, expectativas, contrariedades e esperanças da população, a partir das questões da violência e insegurança, escalada de taxas e tributos, desemprego, promessas não cumpridas pelos políticos, congestionamentos urbanos, serviços públicos precários, em suma, a sensação de que as coisas continuam pretas. Se o PNBInf estiver baixo, Lula estará em alta e vice-versa. Se a taxa de infelicidade permanecer numa escala intermediária, sobrará lugar para o diferencial do discurso. Nesse caso, o fator racionalidade – que se desenvolve com mais força nos segmentos centrais da sociedade – terá condições de empurrar seus efeitos por todos os lados. Ou seja, os ecos da classe média poderão atingir as classes C, D e E.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.

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