A última edição da Carta do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), divulgada em julho, transmite uma visão de otimismo moderado quanto à recuperação da economia brasileira, apesar do preço relativamente elevado que está sendo pago em termos de crescimento no exercício atual. Segundo o documento compulsado pela maioria dos consultores, economistas e executivos financeiros, o Produto Interno Bruto (PIB) “desacelerou de uma expansão robusta de 5,1%, em 2008 (e 5,6% em 2007), para um crescimento nulo, ou mesmo negativo, previsto para este ano por grande parte dos analistas”.

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Os sinais indicam a dificuldade de obter um resultado positivo em 2009, mas também asseguram que “o pior momento ficou para trás”, tendo em vista o crescimento verificado já no segundo trimestre do ano. Diz a FGV que “uma projeção simples do PIB de abril a junho, que toma como ponto de partida o desempenho da indústria de transformação, indica um crescimento de 0,7%. Se isto ocorrer, a economia teria de se expandir a um ritmo médio de 2,7% em cada um dos dois últimos trimestres de 2009, na medida dessazonalizada, para que o PIB não caia no ano”, sublinhando que “este não é, evidentemente, um cenário provável, o que indica que haverá queda do PIB em 2009”.

Todavia, a postura recomendada pela FGV é considerar a força da recuperação que está em marcha, mesmo com os severos golpes sofridos em maior escala pela produção industrial, exportações e investimentos produtivos. A percepção realista da plena recuperação da economia brasileira é que a mesma está na dependência da perspectiva de retomada da demanda externa e seu peso sobre a indústria. Os estragos causados pela contingência inevitável do ajuste de estoques observados diretamente na diminuição do ritmo da produção industrial, nos momentos de maior turbulência da crise mundial, estão praticamente esgotados.

A Carta do IBRE buscou identificar no mercado de trabalho a qualidade da solidez da esperada recuperação da economia: “Como é do consumo e dos serviços que vêm os sinais de vitalidade da economia neste momento, é fundamental saber se o bom desempenho do emprego e da renda será mantido. Há alguma ambiguidade nos indicadores nesta área, que tem levado a leituras bastante distintas por parte de diferentes analistas do mercado”. Nos primeiros meses de 2009, mesmo com a intensidade da crise, houve crescimento da massa salarial e da população ocupada em comparação com o mesmo período do ano passado. No entanto, “a população ocupada vem apresentando crescimento cada vez menor ante os mesmos meses de 2008, saindo de 1,9% em janeiro para 0,2% em maio. O desemprego, que ficou em 8,8% em maio, está em nível 0,9% superior ao de 2008, mas teve uma trajetória em 2009, mês a mês, abaixo da verificada em todos os anos entre 2002 e 2007”.

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Além disso, o entrave mais grave continua sendo a queda das exportações, que no primeiro semestre tiveram um corte de 22,2% em relação aos números apurados em 2008. Houve também o recuo de 28,9% das importações, garantindo que a balança comercial se mantivesse superavitária. Contudo, a preocupação ainda é acentuada porque o efeito direto e indireto da queda das exportações, segundo estudo concluído pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), refletiu em cerca de 50% da redução da produção industrial entre setembro de 2008 e abril do corrente. Nesse aspecto a posição da FGV não é animadora, à vista da lentidão do crescimento do indicador de demanda externa da indústria medido pela Sondagem Industrial do IBRE/FGV.

A conjuntura resulta, em grande parte, da queda do índice de confiança do consumidor norte-americano, “uma peça importante da demanda externa global”. O caminho ideal estaria no reaquecimento das economias latino-americanas especializadas em commodities, em função da retomada da demanda chinesa. Caso isso aconteça, vizinhos da América Latina voltariam à condição de principais compradores de produtos brasileiros. Entretanto, tudo é apenas probabilidade.

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