Células embrionárias e o futuro da medicina

O futuro da medicina está cada vez mais próximo. Encaradas, nos últimos anos, como promessa para o tratamento de diversas enfermidades, as células-tronco já garantem qualidade de vida e trazem esperança para portadores de alguns tipos de câncer, deficiências imunológicas e doenças genéticas. E o Brasil acaba de conquistar um grande avanço nessa área, com a aprovação das pesquisas com células-tronco embrionárias, como parte da Lei de Biossegurança.

Agora, os cientistas poderão iniciar os estudos com essas células. Descobrirão se é possível multiplicá-las e transformá-las, no laboratório, em células da medula óssea, do músculo cardíaco ou do sistema nervoso, entre outras aplicações possíveis. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Esperamos que, daqui a alguns anos, seja possível diminuir a enorme fila de pacientes que necessitam de transplante no Brasil.

Mesmo com a liberação das pesquisas, o tema continua polêmico, assim como foi polêmico o nascimento de Louise Brown, o primeiro bebê de proveta, há mais de 26 anos. Muitos dos medos, alarmes e questionamentos daquela época ressurgem agora, quando se discute a aplicação das células-tronco embrionárias, retiradas de embriões excedentes, descartados em tratamentos em clínicas de fertilização. Nesse assunto, a Inglaterra saiu na frente e foi o primeiro país a liberar, em agosto de 2000, experiências com células-tronco de seres humanos. E é de lá o primeiro caso de cura de diabetes a partir dessa terapia, que acaba de ser anunciado.

As experiências com células-tronco revolucionarão a medicina, beneficiando milhões de pessoas ao permitir o tratamento de doenças genéticas e crônico-degenerativas, hoje incuráveis. Os avanços podem demorar a ser percebidos. Porém, encorajada pelas histórias bem-sucedidas de doentes que recuperaram a vontade de viver, a comunidade científica brasileira investe com firmeza na área.

Recentemente, o Ministério da Saúde também deu ânimo aos pesquisadores brasileiros, reforçando o potencial das células-tronco, ao assumir o compromisso de promover estudos para avaliar a eficácia dos transplantes de células-tronco no tratamento de doenças do coração – para isso, serão mobilizados 40 centros de pesquisa e 1.200 pacientes com diferentes problemas cardíacos. Segundo o ministro Humberto Costa, outros estudos serão anunciados ainda em 2005, para avaliar se as células-tronco da medula óssea e do cordão umbilical podem ser usadas no tratamento de diabetes, lesão da medula espinhal e mal de Alzheimer.

Não por acaso, o governo federal anunciou, no ano passado, a criação da rede BrasilCord, com o objetivo de armazenar 12 mil amostras de sangue do cordão umbilical a serem utilizadas pela população em geral, de forma a atender à demanda de doadores para casos de transplante de medula e, no futuro, para o tratamento de outras enfermidades. Trata-se de uma iniciativa extremamente importante e todos os cientistas verdadeiramente comprometidos com a pesquisa no Brasil têm motivos de sobra para apostar na viabilidade do banco público de sangue do cordão.

É preciso reconhecer, no entanto, que a consolidação da rede BrasilCord representa um enorme desafio. Para se ter uma idéia da dimensão desse desafio, nos Estados Unidos, onde os bancos de sangue do cordão estão em operação há cerca de 15 anos – o pioneiro é o New York Blood Center -, há 60 mil amostras armazenadas. Mas, segundo o diretor da instituição, Pablo Rubinstein, o ideal para atender a população norte-americana seriam 150 mil amostras. Além disso, é constante o esforço para se manter em atividade esses bancos públicos, uma vez que eles estão sempre às voltas com problemas financeiros, o que evidencia ainda mais a grandiosidade da empreitada no Brasil.

Enquanto a rede pública dá seus primeiros passos, é inevitável que os bancos privados de sangue do cordão representem ainda a única opção de esperança no futuro em muitas regiões do País. Esses bancos permitem que pais residentes fora do eixo Rio-São Paulo armazenem e congelem o sangue do cordão de seus filhos, apostando nos avanços das pesquisas. Ao pagar por esse serviço, é fundamental informar-se sobre as possibilidades e as limitações terapêuticas do sangue do cordão. Por outro lado, os bancos públicos têm obrigação ética e moral de informar os pais sobre a utilização do sangue do cordão, deixando claro que, a partir do momento em que ocorre a doação, eles não têm mais qualquer direito sobre o sangue ou sobre seu uso.

O momento é de grande esforço de diversos setores, que têm demonstrado seriedade e competência para ajudar o País a avançar em uma importante área da ciência, em benefício da população e da consolidação do Brasil como pólo de pesquisa.

Cláudia Maria Maggioni é médica hematologista responsável pelo banco de sangue do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, e diretora clínica da CordVida.

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