Morreu Dorival Caymmi. Sábado, pela manhã, veio a notícia. Aos 94 anos, perdíamos o mais inventivo dos compositores brasileiros, um daqueles gênios que melhor souberam combinar letra e música em canções inesquecíveis. Junto com Ary Barroso, Lamartine Babo, Noel Rosa, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Chico Buarque e seus discípulos Caetano Veloso e Gilberto Gil, forma na lista dos maiores músicos de nossa história moderna. Caymmi ajudou a criar o Brasil em que vivemos.

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Se nós temos um país sensual e praieiro, devemos a Dorival Caymmi. Em suas criações conhecemos o calor da Bahia e suas mulheres e homens maravilhosos. Dali, da areia, surgem exemplares únicos: a Gabriela, que “nasceu assim, cresceu assim”; e João Valentão, que “não precisa dormir para sonhar”.

Os dramáticos temas dos pescadores, a relação única com o mar e a reverência aos santos e aos orixás estão presentes na obra de Caymmi. Canções que tiveram efeito importantíssimo na cultura brasileira, pois retrataram um país que se mantinha escondido. E da forma lírica que ele apresentou, foram absorvidas pelo inconsciente coletivo.

Mas ele também foi urbano, sentimental, melódico. Não fosse ele, não existiria o samba-canção, o nosso bolero. Ele nos levou às noites de Copacabana (“A noite passa tão depressa…”, de Sábado em Copacabana), ao Carnaval lúdico do Recife (com Dora, a rainha do frevo e do maracatu) e às alegres (“O amor acontece na vida / estavas desprevenida / e por acaso eu também…”, de Nem eu) e tristes horas da fossa (“Nunca mais vou sentir o teu beijo / nunca mais…”, de Nunca mais).

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Dorival Caymmi ainda nos ofereceu sambas leves, típicos de seu temperamento afável. Com Maracangalha, Maricotinha e Acontece que eu sou baiano, ele mudava a música brasileira sem fazer barulho. Não é à toa que os principais nomes da Bossa Nova eram apaixonados por suas canções.

E, no nosso íntimo, somos todos apaixonados por Caymmi. Ele, na sua lendária preguiça, na sua simplicidade proverbial, no seu afeto infinito e na sua imensa qualidade, era tudo que nós, brasileiros como ele, deveríamos ser.

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