Cavalo encilhado

A sociedade deverá aguardar mais alguns meses, provavelmente até o início do segundo semestre, para avaliar em toda a extensão o peso da fatura a ser apresentada pelo Congresso Nacional ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que além de dar a palavra de comando da máquina administrativa, ainda precisa se desdobrar na aplicação prática dos golpes, esquivas e contragolpes comuns ao confronto político, primeiro na empreitada de confirmar a ministra Dilma Rousseff como candidata da base à sucessão e, daí em diante, sair a campo para elegê-la.

Ninguém mais tem dúvida sobre o montante do investimento capturado pelo PMDB nas últimas eleições municipais, quando emergiu das urnas como o partido com o maior número de prefeitos eleitos em todo o País. Esse ganho notável foi acrescido ao desfrute das maiores bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado da República, condição que lhe confere, por conseguinte, a auréola de maior partido da aliança governista. Já há quem afirme, sem menosprezo a uma espontânea carga de ironia, que o PMDB atual é o rei dos partidos políticos brasileiros.

Guardadas as proporções, em verdade o PMDB é um decalque da falecida Aliança Renovadora Nacional (Arena), imenso conglomerado de conservadores, direitistas e ferrenhos propugnadores da doutrina de que interesses privados, em quaisquer circunstâncias devem ser amparados (quando não confundidos) pelos interesses públicos. No auge do embevecimento com uma grandeza que se mostrou artificial e interesseira, o então presidente da agremiação, Francelino Pereira, deputado federal eleito por Minas Gerais, estado que veio a governar pelo voto único do general-presidente de turno, não teve pejo ao afirmar que a Arena era o maior partido do Ocidente.

Na hora aprazada, que na linguagem popular, é aquela em que a onça se aproxima do regato para beber água, quem estiver vivo verá o PMDB estender a conta ao presidente Lula. Não poucos chegam à conclusão que, quiçá, a prerrogativa de indicar o candidato a vice-presidente na chapa situacionista, não seria a recompensa ansiada pelos artífices do pensamento político atual do partido que um dia abrigou personalidades reverenciadas como Ulysses Guimarães, Teotônio Vilella, Severo Gomes, Mário Covas e Paulo Brossard, entre tantas outras.

Segundo as conjecturas dos intérpretes dos bastidores da política, empalmando a direção da Câmara e do Senado com Michel Temer e José Sarney, mais os seis ministros e inúmeros dirigentes distribuídos estrategicamente em empresas estatais de primeira grandeza, o PMDB ainda não se arvorou a reivindicar o primeiro lugar na chapa oficial, por absoluta carência de um político que satisfaça as exigências mínimas requeridas de um candidato presidencial. Dizendo de outra forma, um candidato que não venha a ser um mero figurante. Supõe-se que Sarney assumiu o compromisso de lutar pela candidatura da ministra Dilma Rousseff, mas não se garante a mesma disposição de parte do deputado Michel Temer, político bastante ligado ao ex-governador Orestes Quércia, para quem a opção mais recomendável para o partido é apoiar a candidatura do governador José Serra.

Nunca se falou tanto na possibilidade do retorno do governador mineiro Aécio Neves, que seria galardoado pelo PMDB com a prévia liberação da legenda para a disputa presidencial, à vista dos espinhos semeados em seu caminho pelo tucanato que reza pela cartilha serrista. Aécio se empenha em convencer a cúpula do partido a realizar consultas internas com a finalidade de definir o candidato ideal. Ainda é cedo, portanto, para afirmar que deu as costas à manhosa política das Alterosas, da qual seu avô Tancredo foi um abalizado mestre. Não é à toa que o governador, diante das sondagens cada vez mais insistentes, reitera que ninguém chegará à presidência da República dispensando a força que o PMDB tem hoje. O ditado pode ter outra origem, mas é conhecido em Minas: se o cavalo encilhado está passando, infeliz de quem não montar.

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