Cavalo de Tróia

A fragilidade e descaracterização dos mais importantes partidos políticos brasileiros tem sua origem em 27 de outubro de 1965. O Ato Institucional n.º 2, nesse dia, extinguia o PSD, a UDN, o PTB, o PDC, o PR, o PL e outros, por ato de força, liquidando partidos que se consolidavam nacionalmente com pluralistas correntes de pensamento. Tinham em média 20 anos de existência. Hoje teriam 62 anos de vida ativa. Impuseram um bipartidarismo expressado na Aliança Renovadora Nacional (Arena) e no Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Ao primeiro caberia a sustentação política dos atos autoritários. Ao segundo caberia ocupar um espaço de oposição consentida. Mas o tiro sairia pela culatra.

O MDB se organizou com enormes dificuldades. A sua primeira executiva tinha no senador Oscar Passos, eleito pelo PTB do Acre e também general, o seu primeiro presidente, e o deputado Ulysses Guimarães, vice-presidente. A grande luta seria travada na Câmara dos Deputados, daí a importância da eleição de um líder que tivesse competência e credibilidade. Foi escolhido Tarsilo Vieira de Melo, eleito pelo PSD da Bahia e que fora o grande líder da maioria do governo JK. O saudoso Vieira de Melo iniciou forte mobilização, na qual chegou a preconizar a renúncia coletiva dos parlamentares oposicionistas na hipótese de serem decretadas novas cassações. Candidato ao Senado em 1966 e tendo sua eleição fraudada na Bahia, ficou sem mandato. O deputado Pedroso Horta seria o próximo líder do MDB na Câmara. A frente oposicionista reunindo os parlamentares que se opuseram ao movimento militar de 64 se consolidava. O próximo líder seria o deputado Mário Covas, cassado em 1969 e substituído por Humberto Lucena. Na década de 70, os líderes de bancada foram Aldo Fagundes e Jairo Brum, ambos do Rio Grande do Sul. Igualmente Laerte Vieira, de Santa Catarina, que seria derrotado em 1977, pelo deputado Alencar Furtado, também cassado e que pela repercussão nacional e internacional veio a ser a última cassação política no Brasil. Seguem-se Freitas Nobre, Tancredo Neves e novamente por dois anos Freitas Nobre. Foram os líderes do MDB nos tempos terríveis dos ?anos de chumbo?.

A extinção do bipartidarismo arquitetado pelo general Golbery do Couto e Silva obrigava o surgimento de nova realidade partidária. Era exigência da lei o nome de partido à frente da sigla. Foi quando o saudoso Marcos Freire, senador por Pernambuco, sugeriu o nome PMDB, já que o MDB estava organizado em todos os estados e era uma realidade política nascida na mais brutal adversidade.

Nas eleições de 1982, o partido seria invadido pelo oportunismo eleitoral. O ingresso de velhos arautos da ordem autoritária nos seus quadros iria gerar a realidade de federação regional que prevalece nos dias atuais. Com a derrota da emenda das eleições diretas, o colégio eleitoral foi a alternativa. E aí ocorreu o inusitado: o senador José Sarney, que fora, por anos, presidente da Arena e depois do PDS, partidos de sustentação à ordem autoritária, filia-se ao PMDB para ser o vice na chapa de Tancredo Neves. A porteira do adesismo foi aberta de vez. E a fatalidade da morte de Tancredo Neves guindou à Presidência da República o oligarca maranhense.

Em 1985, era eleito líder do PMDB na Câmara o deputado Pimenta da Veiga. Ocupava eu, à época, a vice-liderança e diante do populismo econômico que o governo praticava, e não sendo ouvido nos alertas feitos sobre o recrudescimento da inflação, subi à tribuna e renunciei ao posto, dizendo que Sarney era ?fruto de uma infecção hospitalar que vitimara Tancredo e autêntico pigmeu maranhense?. Isto no quinto mês de governo. Vinte anos depois, aquele vaticínio se comprova. Agora na condição de senador do Amapá, o seu mais novo feudo.

Em um país sem memória, onde um expressivo número de militantes e simpatizantes do neo-PMDB não conhece a sua história e muitos foram ardorosos defensores do autoritarismo, achei oportuna essa lembrança histórica. Na última semana, o velho oligarca maranhense-amapaense assestou mais um golpe no partido, ao impedir que os seus filiados decidissem democraticamente o seu destino eleitoral. Fazendo uso do Superior Tribunal de Justiça, que tem na sua presidência o maranhense Edson Vidigal (ex-colega de Câmara) e vinculado há décadas à orientação de Sarney, impugnou a democrática consulta.

No passado, fui fundador do MDB e do PMDB e seu vice-presidente nacional. Desfiliei-me há 16 anos. Mas no presente, não poderia, em nome da história democrática, deixar de expressar tristeza e solidariedade aos seus militantes honestos, vítimas dos golpistas políticos sem convicção que assaltaram (literalmente) a legenda.

É a inversão da Odisséia do grego Homero sobre as aventuras de Ulisses após viagem cheia de peripécias, ao retornar à pátria, após a tomada de Tróia.

Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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