Catálogo de aberrações

Doze dias depois da maior tragédia da aviação comercial brasileira, com a morte de mais de 200 pessoas, motivada pela explosão do Airbus A320 da TAM contra um prédio que abrigava um despacho de encomendas expressas da mesma empresa, próximo a uma das cabeceiras da pista principal do Aeroporto de Congonhas, a população não conseguiu superar o choque emocional ou o sentimento de pesar repartido com familiares e amigos das vítimas.

Desde o primeiro momento, quando não se tinha a mínima idéia do que poderia ter impedido a conclusão do pouso, já que a aeronave tocara o solo na posição correta e não conseguiu frear, muitas foram as opiniões, não raro contraditórias. Como a aviação entrou em crise desde o choque entre o Boeing da Gol e o jato executivo Legacy, de uma empresa norte-americana (154 mortos), em setembro passado, desencadeando um série de atrasos e cancelamentos de vôos nos principais aeroportos, em conseqüência da reação dos controladores do tráfego aéreo ou de más condições atmosféricas, a questão não tardou a passar para a esfera política.

CPIs foram instaladas na Câmara e no Senado para investigar as causas do apagão aéreo, mesmo com todo o esforço no sentido contrário feito pela base governista. O motivo é simples: ao âmbito governamental pertencem os principais organismos ligados à aviação – Infraero, Anac e Cenipa – entre outros esoterismos que executam (?) sabe-se lá que tipo de atividades.

O governo, porém, dentre os atores, é o mais apalermado com a situação, porque em dez meses não foi capaz de equacionar a crise, sendo no último final de semana mais uma vez ridicularizado por uma pane elétrica que tirou do ar o sistema do Cindacta IV, localizado em Manaus, cujo resultado foi nova onda paralisante espraiada por todos os aeroportos importantes. Sem azimute definido e com a bússola avariada, a forma que o governo encontrou para exibir a grotesca carantonha que encobre suas verdadeiras intenções foram as obscenidades perpetradas por um assessor especial do presidente (me nego a grafar o nome), em macabro desrespeito aos que choravam a perda de maridos, mulheres, irmãos, filhos ou amigos.

Até mesmo Henfil, criador do irreverente Fradinho Top-Top, se vivo fosse, teria mil motivos para processar o amolado aspone por apropriação indébita e malversação do gesto que imortalizou um dos mais iluminados personagens do humor gráfico nacional. Em defesa própria, declarou o indigitado ter feito um gesto privado. Analistas freudianos bem poderiam enxergar aí um ato falho e afirmar que – provavelmente – o autor do gesto estivesse fazendo alusão àquela descarga fisiológica que seres civilizados só realizam em absoluto recolhimento.

A proposta essencial dessas linhas, contudo, é aproveitar a oportunidade para uma reflexão mais profunda sobre a tragédia de Congonhas. René Rémond, moralista católico francês citado pelo historiador Jean Delumeau em À espera da aurora (Loyola, SP, 2007), declarou com propriedade que durante o século XX ocorreu o deslocamento dos limites no sentido do horror e do progresso: ?(O século) aplicou a razão positiva e construtiva à realização dos horrores. Mas também modificou outros limites: em engenhosidade, em imaginação, em heroísmo?.

No início da noite de 17 de julho, nos arredores do aeroporto encravado em área densamente urbanizada da quarta maior cidade do globo, o progresso e o horror delineados por Rémond se colocaram em fatídica conjunção, ocasionando um desastre de proporções dantescas.

O enunciado nos remete a uma verdade inquietante enfatizada pelo próprio Delumeau, quanto à origem natural dos perigos que ameaçam a humanidade, tais como epidemias, colheitas frustradas e terremotos. Segundo o historiador, ?quantitativamente, os perigos diretamente causados pela natureza, sem terem deixado de existir, tornaram-se menores em relação aos que os homens inventaram e continuam a inventar?. Guerra e terrorismo avultam entre essas mortíferas aberrações.

Um avião de 60 toneladas desabando sobre edificações urbanas também consta do abominável catálogo.

Ivan Schmidt é jornalista.

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