Hélio Duque
Peter Drucker, considerado o pai da administração moderna, quando lançou o livro A Revolução invisível, a tese central era de que os fundos de pensão viabilizavam o sonhado controle dos meios de produção pelos trabalhadores. Era o auge da guerra fria, onde EUA e URSS disputavam a supremacia de corações e mentes pelos quadrantes do mundo. Atropelando essa guerra ideológica, Peter Drucker demonstrava o nascimento da ?economia civil?. Constituída por acionistas individuais formados pelos trabalhadores que contribuem para os fundos de pensão.
Nascia a governança corporativa, destinada a maximizar o lucro respeitando sua função social. Hoje a ação dos fundos de pensão objetiva a ser a principal fonte de garantia de renda futura para os trabalhadores. Nos EUA, de acordo com o Federal Reserve (o banco central norte-americano), detêm mais de 50% de todos os investimentos na estrutura produtiva. O pioneiro foi o Sistema de Aposentadoria dos Funcionários Públicos da Califórnia, detentor de um patrimônio de 172 bilhões de dólares.
No Brasil, foi o Previ, do Banco do Brasil. Atualmente, os diversos fundos públicos e privados representam 20% do PIB nacional, ampliando a cada ano sua força na economia brasileira. Os seus proprietários são aqueles que contribuíram ao longo dos anos, tendo a certeza e garantia dos proventos e benefícios ao chegar o momento da aposentadoria.
A exigência de administrações profissionalizadas e competentes buscando o lucro nos seus investimentos é meta perseguida. Não se pode e não se deve administrar os fundos de pensão com visão ideológica. Quando isso ocorre, quem perde não são os administradores, mas os seus vários milhões de associados.
Em 1997, o terminal de contêineres de Santos, o maior do País, foi privatizado pelo valor final de 274 milhões de reais. Os fundos de pensão Previ (Banco do Brasil), Sistel (Telebrás), Funcef (Caixa Econômica) e CVC (Citigroup) detinham 60% da estrutura societária, ficando o grupo Opportunity com 39% e, outros, 1%.
A partir de 2003, instalou-se forte conflito envolvendo figuras do governo Lula e o Opportunity, que perdera a gestão da Brasil Telecom, Metrô do Rio, Telemig e Amazônia Celular. Restava o terminal Santos-Brasil. Polêmico e atrevido como exige o mundo negocial, o engenheiro Daniel Dantas, principal executivo do Opportunity, propõe um acordo com os fundos de pensão e com o Citigroup. O Terminal Santos-Brasil, que fora comprado por 274 milhões de reais, oferece 450 milhões de reais pelos 60% de posse dos fundos de pensão. A aquisição é feita em maio de 2006. O valor do terminal fora atualizado para 695 milhões de reais. A venda das ações representou ágio e lucratividade expressiva para os fundos de pensão. No curto prazo, não houve prejuízo, ao contrário. Mas no médio/longo prazo o resultado foi desastroso.
O grupo Opportunity associa-se a dois novos investidores. Contratou o banco de investimentos Credit Suisse para avaliar a empresa. Monta uma estrutura de engenharia financeira que permitirá empréstimo bancário de 323 milhões de reais, oferecendo como garantia as ações da empresa. Em outubro de 2006 faz oferta pública de ações, coordenada pelo Credit Suisse e obtém capitalização no mercado de capitais de 933 milhões de reais. Liquida o empréstimo e capitaliza a empresa.
Hoje o valor de mercado do Terminal Santos-Brasil é de 3 bilhões e 600 milhões de reais. Com perspectivas de crescimento ante a franca expansão do setor no Brasil. Agora pretende atuar como operador logístico, avançando além de terminal portuário.
Os números falam por si sós. E demonstra que quando a visão ideológica prevalece sobre os fundamentos econômicos, o prejuízo é certo. Neste caso, aqueles fundos de pensão que abriram mão desse fantástico patrimônio. Originalmente detendo 60% do empreendimento, no valor atual de 3,6 bilhões, seriam donos de 2 bilhões e 160 milhões de reais. Ao invés dos 450 milhões recebidos pela venda poucos meses antes. Os lesados foram os associados.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.