Caminho da paz

Depois de uma semana de acirrados confrontos entre oposicionistas e o governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad, reeleito para governar a república islâmica do Irã com ampla margem de diferença sobre os demais contendores, a suprema autoridade religiosa do país, o aitolá Ali Khamenei fez um discurso que coincidiu com a hora das tradicionais preces muçulmanas das sextas-feiras.

O líder religioso apelou aos descontentes que acatem o resultado das urnas e ponham um fim à onda de protestos reconhecendo não apenas a vitória de Ahmadinejad, mas também a correção do processo eleitoral recentemente realizado. Khamenei ratificou que o resultado foi justo e voltou a pedir aos manifestantes que abandonem o sentimento de beligerância, exatamente no momento em que os choques entre facções rivais no cenário político iraniano ameaçavam sair do controle das autoridades. O discurso pacificador de Khamenei teve como palco, e a escolha do local não deve ser interpretada como mera concidência, a Universidade de Teerã, onde oito pessoas morreram no início da semana em confrontos com a polícia.

A oposição cancelou os protestos marcados para ontem, mas avisou que deverá voltar às ruas da capital e cidades importantes neste sábado, a fim de exigir a convocação de novas eleições. Khamenei insistiu no argumento de que as dúvidas devem ser esclarecidas pelas autoridades responsáveis pelo processo eleitoral. Nesse aspecto, mais de 600 alegações de fraudes estão sendo investigadas pelo chamado Conselho dos Guardiões, uma espécie de tribunal superior que toma decisões definitivas sobre conflitos de interesse na referida nação islâmica.

Khamenei não perdeu a oportunidade de invectivar determinados diplomatas estrangeiros que antes elogiaram o processo eleitoral, “mas agora tiraram as máscaras” e passaram a apresentar versões inteiramente diferentes. “Isso demonstra uma grande inimizade para com o estado islâmico”, proclamou o líder religioso, que muito embora não conseguiu justificar a violência empregada pela polícia na repressão às manifestações dos estudantes e da população, e tampouco a proibição imposta ao trabalho dos jornalistas e o bloqueio do acesso à maioria dos websites de notícias.

Para os analistas de política internacional os verdadeiros motivos da explosiva situação vivida atualmente pelo Irã ainda não vieram à tona, mas são frutos diretos das divergências existentes entre o presidente reeleito Mahmoud Ahmadinejad, o vice-presidente Rafsanjani (frustrado na tentativa de se eleger presidente em 2005) e o próprio aiatolá Ali Khamenei, que segundo observadores bem informados não esconde as restrições ao estilo pessoal do atual presidente. Até esse momento, os analistas ainda não haviam conseguido identificar nas ruidosas manifestações da oposição nada mais que o apelo pela realização de novas eleições, mesmo que o líder supremo da religião islâmica tenha empenhado a palavra quanto à rigorosa correção do pleito.

O Conselho dos Guardiões convocou os três candidatos derrotados por Ahmadinejad, dentre eles Mir Hossein Mousavi, que jura ter havido fraude nas eleições porque teve mais votos do que o vencedor. A reunião está marcada para hoje e pretende analisar todas as alegações levantadas pela oposição. A verdade é que a temperatura política no Irã chegou a um limite perigoso, convencendo as autoridades a tomar todos os cuidados para evitar a precipitação de ocorrências ainda mais ruinosas para a convivência pacífica dos cidadãos.

Também é fundamental que num momento delicado para a vida do país, o presidente Mahmoud Ahmadinejad tenha lucidez suficiente para pautar sua conduta político-administrativa de conformidade com os limites estabelecidos pela harmonia e pelo direito à liberdade de expressão e consciência ideológica. Insistir em transformar o Irã num barril de pólvora a trovejar ameaças contra Israel e o resto do Ocidente, além de constituir uma tragicomédia de péssimo gosto, equipara o presidente iraniano aos muitos bufões que a história já soterrou.

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