O jornal madrilenho El Pais, no auge da crise mancheteou que o governo brasileiro havia sido literalmente levado às cordas, valendo-se de imagem corriqueira utilizada pelos cronistas do boxe. O presidente federal da OAB, o paranaense Roberto Busato, participando de encontro de juristas em Roma, afirmou aos repórteres que o presidente Lula está parecendo Adilson Maguila Rodrigues, o boxeador de punhos de aço e queixo de cristal.
Tanto uma quanto outra apreciação, nenhuma ofensiva à honorabilidade da função presidencial, diga-se de passagem, fazem inteira justiça ao espetáculo ora em curso no Brasil. Fato a lastimar, sobremaneira, tendo em vista a paralisação do importante elo da vida constitucional, qual seja o Congresso, absorvido pela discussão em torno da implantação da CPMI dos Correios, de súbito, adubada pela incontinência verbal do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), ao denunciar o pagamento de mensalões de R$ 30 mil aos deputados do PP e do PL.
Tendo votado uns poucos projetos importantes este ano, o Congresso, que ainda está devendo a aprovação das reformas essenciais para o aperfeiçoamento da vida nacional, mais uma vez ver-se-á engessado pela efervescência política do momento e os desdobramentos naturais do imbróglio. Na verdade, são fatos inerentes ao processo democrático e mesmo sob pena de sofrer novas perdas de ordem ética e moral, o Legislativo não pode furtar-se ao cumprimento do dever.
A celeridade com que se debruçaram sobre a questão a Comissão de Ética e a Corregedoria da Câmara, posto que a disposição de averiguar a veracidade das declarações de Roberto Jefferson não sirva de argumento para dificultar ou impedir o funcionamento da CPMI, é o mínimo que a sociedade espera da Casa. Por outro lado, a restrição aberta do governo à investigação dos indícios de roubalheira na ECT esvaiu-se após a entrevista-bomba de Jefferson à Folha de S. Paulo, quando explodiu o lance dos mensalões pagos pelo tesoureiro petista Delúbio Soares.
Na entrevista de quarta-feira, mesmo sem convencer, Delúbio negou qualquer pagamento de propina em troca de votos e colocou à disposição dos interessados seu sigilo bancário. Não exibiu, até porque estamos diante de um elemento extremamente volátil, nenhuma prova concreta em respaldo a suas afirmações. É óbvio que, em tais circunstâncias, ninguém haverá de ser estulto a ponto de deixar a descoberto pistas que aclarem o ilícito.
Não é demais lembrar, no entanto, que no famoso empréstimo obtido por Fernando Collor no Uruguai, sendo o dinheiro transferido para uma agência bancária de Posadas, na Argentina, o bodum da fraude brotou quando peritos examinaram os documentos e notaram que se havia grafado Missiones em lugar de Misiones, erro infantil que nenhum amanuense teria cometido. De repente, sabe-se lá, algum investigador arguto poderá ter um estalo e fazer entornar o caldo. Além disso, não se deve jamais descartar o mal que venha a acorrer caso apareçam uma secretária ou um motorista descontentes…
É de espantar, embora devêssemos estar de antemão cientes dos possíveis imprevistos, que uma figura carimbada como o deputado Roberto Jefferson, contumaz galhofeiro da política brasileira, ascenda ao lugar principal da ribalta e reclame para si toda a potência dos refletores. Ora, esse é um despropósito que chega às raias da imoralidade, num País carente de homens públicos dedicados ao trabalho de legislar, não em causa própria, mas em benefício da coletividade da qual se subtrai, todos os dias, precioso naco dos direitos constitucionais.
O presidente Lula, vilmente atraiçoado por uma das figuras eminentes da aliança de sustentação, eufemismo que escondeu até outro dia um conluio integrado também por algumas divindades que freqüentam os esgotos, na irrefutável expressão de Jorge Luis Borges, começou em bom momento a desmontar o arcabouço da safadeza e da volúpia pelo dinheiro público.
A sociedade espera que o presidente beba esse cálice de amargura até a última gota.
Ivan Schmidt é jornalista.