Hélio Duque

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Estudioso do Brasil há 40 anos, o acadêmico norte-americano, inglês de nascimento, Kenneth Maxwell, dirige na Universidade de Harvard o programa de estudos brasileiros. Integra o núcleo principal dos pesquisadores ?brazilianistas?, que a partir da década de 60 desenvolveram excelentes e históricos trabalhos sobre o desenvolvimento nacional. Não é portanto um diletante quando emite conceitos sobre a nossa realidade.

Recentemente, em visita ao País, falando sobre os partidos políticos, defendeu a necessidade democrática que tem o Brasil de um partido conservador moderno, que fosse honesto ao defender o liberalismo e que assumisse suas crenças: seria uma grande revolução. Entende que a centro-direita não se assume na nossa vida partidária. A grande maioria das siglas tem no fisiologismo e na ocupação do aparelho estatal a meta síntese de existência.

O professor Kenneth Maxwell é um crítico mordaz do fato de existir uma centro-esquerda congestionada com equívocos recorrentes. Destacando nesse segmento dois partidos. Com ironia elabora um pensamento verdadeiro: ?O PSDB é um partido de caciques, sem índios. O PT é um partido de índios com um só cacique?.

Fixemo-nos no PSDB, onde o diagnóstico é perfeito. Nascido de uma ruptura com o PMDB, o grupo histórico que resistiu ao regime autoritário buscou a construção de um autêntico partido social-democrata moderno. Mas ao longo dos anos foi se encastelando em uma posição de afastamento das lideranças populares. A antítese do que deve ser uma agremiação social-democrata. Ao chegar à Presidência da República aprofundou o divórcio, fortalecendo alianças à direita com nítido sentido conservador. Marcou-se como um partido de elite, onde as chamadas grandes figuras passaram a ser o seu referencial. Assumiu uma espécie de feudalismo político, onde alguns se consideram proprietários da legenda. O preço pago pela equivocada opção foram as duas derrotas na disputa presidencial.

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?Muito cacique e pouco índio? precisa ser, com urgência, uma página virada na história do PSDB. É o momento de sepultar vaidades e assumir ações corajosas e afirmativas, expressando os verdadeiros anseios populares. Em recente viagem pelo País, constatei que esse pensamento não é isolado. É fundamental retomar o ideário social-democrata reintroduzindo os anseios das massas populares na vida partidária. Resgatando a sua história ideológica de um núcleo de centro-esquerda.

Fazer profunda mudança na sua estratégia política é âncora básica. O governador Aécio Neves pensa exatamente na mesma direção: ?É preciso descer do muro e do salto alto, traduzir de forma mais popular as idéias do PSDB e defendê-las de maneira afirmativa. Não dá para ficar só nas grandes teses. É preciso chegar perto das pessoas. É preciso promover seminários regionais, convidando para a discussão não apenas políticos, mas gente das universidades, dos sindicatos, das associações de classes, das organizações não governamentais, reativando a vida partidária como espaço da participação popular?.

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Na mesma direção e objetivo, pensa o economista José Serra, eleito governador de São Paulo, que pretende fazer da bandeira do desenvolvimento, com responsabilidade, a marca de um PSDB bem mais ousado, e popular. Considera que o Plano Real, uma bandeira peessedebista, se esgotou no imaginário popular. Daí ser fundamental empenhar uma pregação popular e desenvolvimentista, recuperando o discurso perdido desde as eleições gerais de 2002.

Avesso à demagogia e ao populismo, José Serra não buscará no início do seu governo medidas de impacto eleitoral. Sua prioridade será começar a governar atacando projetos de abrangência econômica e social. Com especial atenção na infra-estrutura, quebrando o círculo vicioso que trava o crescimento econômico. O programa favela-bairro se integrará no ataque à infra-estrutura social.

O roteiro do que precisa ser o PSDB, nos próximos anos, não poderá fugir desse diagnóstico, de ser um eficiente administrador de governos estaduais e municipais. Aliado à firmeza de uma clara opção de desconstrução de uma agenda antipopular que marcou uma fase da sua existência. Lamentavelmente.

Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.