Tenho procurado exercer o papel de um parlamentar integrante do bloco de oposição da forma mais responsável possível. Meus posicionamentos e críticas, por mais contundentes que sejam, não se distanciam do senso ético e construtivo que norteia as minhas ações no parlamento. O itinerário do atual governo e a seqüência de revelações surgidas ao longo dos trabalhos das comissões parlamentares de inquérito das quais participo reforçam, a cada momento, a minha visão sobre o destino sombrio deste governo. A postura assumida pelo presidente da República e, por conseguinte, transposta como figurino padrão de uma equipe inepta em termos de gestão administrativa, com honrosas exceções, não deixa sequer uma fresta de esperança no crepúsculo do governo Lula.
Não há vertente na qual possamos nutrir otimismo. O Brasil vem perdendo terreno quanto à sua participação no produto latino-americano. Em matéria de taxa de crescimento do Produto Interno Bruto – PIB – no período 2002-2004, o Brasil está na zona de rebaixamento, ao lado de Haiti, Guatemala, República Dominicana e El Salvador.
Na contramão da retórica presidencial, a economia brasileira está longe de preencher as condições necessárias para o crescimento sustentado. Segundo os diagnósticos mais abalizados, a conjugação de taxa de investimento relativamente baixa, infra-estrutura precária, reduzidos estímulos à inovação e aumento de produtividade impede a aceleração do crescimento.
Se nos reportarmos à desatenção do governo federal para com o setor agropecuário, encontraremos todos os fundamentos para atestar o comprometimento do desempenho da atividade rural no Brasil. Em 2005, o PIB da agropecuária deverá ter uma redução de R$ 15,9 bilhões, encerrando o ano na marca de R$ 144,7 bilhões. No ano passado, o PIB da agropecuária foi de R$ 160,65 bilhões. O descaso pode ser mensurado quando focalizamos, por exemplo, a redução no volume de recursos destinados ao financiamento de custeio para a nova safra (2005/2006), que teve queda de 39%.
A lógica canhestra vigente se traduz na política governamental de combate e prevenção de pragas e doenças na agricultura e pecuária, duas áreas vitais no fechamento da balança comercial. Os dados do Sistema Integrado de Administração Financeira – Siafi – demonstram que o governo represou 97% dos recursos destinados a 20 programas específicos da área de vigilância fitossanitária, economizando R$ 107 milhões e assumindo o ônus de comprometer uma carteira de exportações da ordem de US$ 17,3 bilhões.
Prosseguem os equívocos e disparates gerenciais perpetrados pelo governo do presidente Lula. A população, aparentemente silenciosa, se fez ouvir no recente referendo. Os prejuízos provocados pela corrupção e infligidos à sociedade brasileira são incomensuráveis. No Brasil, segundo a Transparência Internacional, a corrupção é tratada como ?business as usual?, ou seja, um negócio comum.
Nesse contexto, é inevitável a menção ao primeiro pronunciamento, em 28/10/2002, do então presidente eleito Lula, que prometia empreender ?combate implacável? à corrupção. No índice de percepção da corrupção da mencionada organização não governamental, no ano de 2005, a nota do Brasil caiu de 3,9 para 3,7 (em uma escala de 0 a 10, sendo 10 a melhor nota).
Estou convencido de que a omissão daquele que tem responsabilidade pela condução do Estado nos levou a uma situação de quebra dos pilares éticos jamais imaginada.
Foi sintomático o óbito, de causa ignorada, de uma senhora paulista conhecida como a Velhinha de Taubaté, que se tornou uma celebridade nacional há alguns anos por ser a última habitante do País que ainda considerava crível o governo. O anúncio foi feito pelo cronista Luís Fernando Veríssimo no jornal O Estado de S. Paulo, em agosto último. O desaparecimento dessa personagem é sinalizador da descrença que paira nas ruas.
A desilusão com os rumos do governo que se elegeu como fiador das grandes mudanças éticas e sociais está estampada em cada esquina. Os mais crédulos não resistem aos desmandos perpetrados pela gestão Lula. Acredito que nem a ingênua e sonhadora Cabíria, aquela célebre personagem do cineasta Fellini que ganhava a vida nas ruas de Roma nos anos 50s, professando a crença no amor perfeito e acreditando piamente na bondade das pessoas, nem mesmo ela, seguramente, mora mais aqui.
Alvaro Dias é senador e vice presidente nacional do PSDB.