Léo de Almeida Neves
O candidato trabalhista Cristovam Buarque tem a responsabilidade histórica de empunhar a bandeira de industrialização das nossas matérias-primas, seja o minério de ferro, ou o café, a madeira, o couro e outros tantos bens primários, que poderíamos exportar devidamente manufaturados, com valor significativamente mais elevado.
Para alcançar esse objetivo o País dispõe de amplitude de recursos para financiamentos, ao nível do Banco Mundial e do BID, disponibilizados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), outra criação importante do derradeiro governo de Getúlio Vargas (1951 a 1954).
Cristovam não esquecerá na sua jornada eleitoral de relembrar que o Código de Minas, o Conselho Nacional do Petróleo (CNP) e a Petrobras também foram iniciativas de Getúlio Vargas.
A auto-suficiência na extração do ?ouro negro? é uma realidade que nos coloca em posição destacada no cenário mundial, contudo precisamos conquistar até 2009 a auto-suficiência na produção de gás natural e ampliar e construir novas refinarias para exportar derivados de petróleo.
É sabido que o petróleo é riqueza finita, não renovável, e nossas reservas têm horizonte de consumo apenas para os próximos 19 anos. Assim, é criminosa a exportação de óleo bruto em quantidade superior às importações necessárias para suprir nossas refinarias e impõe-se modificar a legislação dos leilões de áreas pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), que transfere a propriedade do óleo ou gás extraídos às multinacionais, com liberdade de serem remetidos ao exterior. A produção de biocombustível, o diesel vegetal, o álcool e outras fontes energéticas alternativas deve ser prioritária, porque nisso o Brasil se distancia e suplanta qualquer outro país do mundo.
O candidato trabalhista deverá repudiar energicamente qualquer nova tentativa do Banco Mundial e do FMI de nos compelir a privatizar o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, consoante esteve fortemente cogitado nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso.
Cristovam Buarque terá que tornar explícito que em seu possível governo não serão objeto de privatização os sistemas Eletrobrás e Nuclebrás, notadamente Furnas, Chesf, Eletronorte e Nuclebrás, uma vez que é fundamental a prevalência nas mãos do Estado da geração de energia elétrica e nuclear.
O candidato trabalhista com certeza exaltará as qualidades insuplantáveis do idioma e do povo brasileiro, enaltecidos com ênfase na obra literária do professor Darcy Ribeiro, demonstrando que a miscigenação racial do português, do índio e do negro, a que se somaram as correntes migratórias de gente de todos os continentes, formou povo cordial, alegre, com excepcional musicalidade, que precisa ser libertado do desemprego e da desigualdade social que favorece a criminalidade e nos carimba com a pecha de um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH).
Para isso, a segunda prioridade do presidenciável deve ser o desenvolvimento econômico, com inflação baixa para não corroer salários e o imprescindível equilíbrio fiscal na execução orçamentária, propondo soluções criativas que desatem o nó dos juros básicos (Selic) mais altos do globo e do real sobrevalorizado, que contrai nossa produção destinada à exportação.
Vivemos a era da globalização com a segmentação da produção industrial pelas multinacionais e a comunicação instantânea que propicia investimentos financeiros intercontinentais em tempo real. Essa conjuntura avassaladora impele o candidato que desfruta da privilegiada prerrogativa de significar o elo entre as históricas realizações e os ideais de Vargas, Jango, Pasqualini e Brizola e a presente luta sucessória presidencial, ao dever imperativo de desfraldar o estandarte nacionalista, que não admite submissão a injunções externas capazes de prejudicar nossa economia e pôr em risco a soberania de nossas fronteiras ou a integridade de nossa incomparável biodiversidade, especialmente da Amazônia.
Os ventos do nacionalismo sopram pela América Latina, e nosso destino é a integração com as nações de origem ibérica, porque só sobreviverão prósperos no universo globalizado os países que se agruparem em blocos econômicos afins na conjugação de interesses comuns.
A força do candidato Cristovam Buarque, mais que seus inúmeros atributos pessoais, está na pujança do trabalhismo. O PDT ficou incólume nas apurações de corrupção no Congresso Nacional e o exemplo de Getúlio Vargas tem que ser mostrado. Depois de 19 anos como presidente da República, os bens constantes de seu inventário eram os mesmos herdados de seus pais, acrescidos de um apartamento no Rio de Janeiro, adquirido com financiamento da Caixa Econômica Federal.
Cabe-lhe, outrossim, apontar soluções concretas para minimizar a corrupção desenfreada que desqualifica e desmoraliza as instituições democráticas. A reforma política com o fim da malfadada reeleição, a fidelidade partidária, a neutralização do poder do dinheiro e da compra de votos nos pleitos têm que ser defendidos com propostas objetivas.
Se essas teses forem abraçadas com vigor e entusiasmo, a candidatura trabalhista poderá subir na preferência popular e, talvez, representar a terceira via desejada por milhões de brasileiros.
Léo de Almeida Neves é ex-deputado federal e ex-diretor do Banco do Brasil. Autor dos livros Destino do Brasil: Potência Mundial e Vivência de Fatos Históricos.