Gaudêncio Torquato

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É errado afirmar que a história não é previsível. A porta do amanhã sempre abre uma fresta à profecia, ainda mais quando se conhecem as forças que agem sobre a dinâmica do tempo. Sob esta hipótese, o cenário político brasileiro, a partir da crise que se desdobra na cadeia de depoimentos dos foros congressuais e nos fatos que se acrescem à montanha de denúncias, não é um horizonte sem cor. A esta altura, com as primeiras atitudes concretas tomadas no Congresso, como a efervescente movimentação parlamentar e a renúncia a mandatos, e, na esfera social, a extensa malha de conscientização, já é possível produzir uma primeira assertiva, no caso, uma observação que vem na contramão do que o velho Gramsci garantia: ?O velho morreu, e o novo ainda não nasceu?. Ouso dizer que o velho ainda não morreu, mas o novo está nascendo.

Temos ainda muita coisa acumulada das possessões de desmandos dos tempos das capitanias hereditárias. Ainda afligem nossos corpos os Tristes Trópicos que, há 50 anos, Claude Lévi-Strauss descreveu, de maneira amarga, depois de conviver com as endemias e as intempéries que assolavam comunidades indígenas de Mato Grosso. Se aquelas não foram plenamente extirpadas, outras, as endemias políticas, multiplicaram-se nas ondas de um conturbado processo civilizatório, ao longo de cinco séculos, e que resultou, nas últimas décadas, em alucinante ritmo de urbanização e modernização institucional, responsável pela engenharia do atual perfil nacional. Demos adeus ao Império, abraçamos a República, a corte foi suprimida, mas, infelizmente, os cortesãos se mantiveram. Eis aí a raiz mais profunda da sistêmica crise brasileira. Temos ainda uma sociedade de cortesãos. Que cortejam o poder em todas as esferas.

Não é de estranhar, assim, o desenho mal-ajambrado que abriga a nossa feição institucional: alternância entre ciclos autoritários e democráticos, ausência de planejamento de longo prazo, descontinuidade administrativa, profissionalização de estruturas do Estado ao sabor do apadrinhamento político, anomia, impunidade e insegurança jurídica, sistemas combalidos como o da Previdência, gestões de serviços precários, Carta Magna de cunho detalhista, tensões permanentes entre poderes, presidencialismo imperial e a política transformada em profissão das mais rentáveis. Esse é o berço esplêndido para o nascimento das redes intestinas de corrupção, que se azeitam no óleo do patrimonialismo. Adicionando-se os modismos da modernidade ao acentuado gosto nacional pela extravagância – aí incluída a linguagem ?Vossa Excelência é um canalha, Vossa Excelência mente? – aos comportamentos miméticos dessa era de comunicação em tempo real e à carnavalização da política, adquire plenos contornos o Brasil que abriga três CPIs de cunho político.

O velho, como se pode concluir, ainda não morreu. Mas há uma ponta de novidade no horizonte que se descortina. A atual crise sinaliza para o aparecimento de um sistema bipolar inédito no campo da mobilização político-social. Vejamos, para comparar, dois movimentos do passado recente. Um deles, a CPI de PC Farias, em 1992, que culminou com a renúncia de Collor em dezembro do mesmo ano, levou às ruas uma turma jovem, de caras pintadas, cuja motivação misturava pitadas de civismo e colheradas de tinta verde-amarela, algo de tom carnavalesco-farrista. Exibia-se ali mais o brasiliensis ludens, o espírito folgazão nacional, que o brasiliensis sapiens, a alma sábia e consciente.

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Desta feita, a coisa é diferente. Primeiro, pela peculiaridade da crise. No passado, a rapinagem de recursos privados e públicos envolvia apenas um ou outro e a distribuição da propina se fazia de forma artesanal. Hoje, o propinoduto é institucionalizado. Com gestão profissional. Partidos, atores individuais, articulações, sistema de distribuição tecnológico, bancos, senhas e altos negócios estruturam a negociata. Estratégias, táticas, programas e projetos estão por trás do arcabouço de um projeto hegemônico de domínio de governo e partidarização do Estado. Arquiteta-se o sistema de forma piramidal, à maneira dos exércitos, com uma cúpula (comandante-geral, generais, coronéis), uma linha intermediária (majores, capitães e tenentes) e a base (as tropas da militância). Furos estratégicos: a cooptação de exércitos aliados foi entregue a figuras sem treinamento; quadros aliados não usavam armas do mesmo calibre; bases desmotivadas; e o jeitinho brasileiro (o toma-lá-dá-cá) acabou dinamitando as pontes para o futuro.

Uma bipolaridade de pressões se instala. Primeiro, no campo congressual, onde o talhe corporativista cede lugar à investigação em profundidade. As oposições, com as exceções de praxe, desempenham de maneira competente a ação investigativa. Um cheiro de pizza se sente no ar. Mas cassações deverão ocorrer. Produz-se uma vacina ética com o veneno da crise. E o laboratório é a mídia que faz ampla cobertura dos escândalos. Portanto, o movimento centrípeto – de fora para dentro – é a grande revolução silenciosa que faz gerar brotos no meio do lamaçal. Este é o fio mais forte de nossas esperanças.

Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP e consultor político.

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