Há exatos cinqüenta anos, no dia primeiro de janeiro de 1958, as forças insurgentes comandadas pelo advogado Fidel Castro, depois de vários meses de intensos combates nas selvas e nas montanhas que projetariam para a história do romântico heroísmo revolucionário o símbolo quase mitológico da Sierra Maestra, entraram na cidade de Havana pondo fim à ditadura do general Fulgêncio Batista, na época um dos inumeráveis títeres do governo norte-americano na América Central.
A revolução cubana está completando 50 anos e durante todo esse longo período o poder na ilha caribenha foi exercido com mão de ferro por Fidel, por meio de um regime “democrático” peculiar que jamais admitiu a necessidade da realização de eleições livres para a escolha dos dirigentes em todos os níveis, com o emprego da simples e boa prática do sufrágio universal. A explicação mais usual do comandante, como adora ser chamado, é que em Cuba não se faz eleição porque o povo, simplesmente, não quer. Estaria tudo em perfeita ordem, se o regime discricionário abolido com a debandada de Fulgêncio Batista e seus principais colaboradores para Miami, não tivesse sido substituído por um autêntico gêmeo univitelino, que mandou para as mesmas masmorras antes utilizadas pela ditadura deposta, milhares de dissidentes punidos pela ousadia de pensar de modo diferente.
Assim como a revolução registrou conquistas memoráveis, por exemplo, no campo da educação, saúde, cultura e esporte, entre outros avanços sociais inegáveis, ela se deixou contaminar por um infamante desrespeito aos direitos da pessoa humana, dentre os quais o mais elementar é o livre curso de idéias políticas e opiniões ditadas pela razão e pela consciência. Em Cuba, nos 50 anos do governo revolucionário chefiado por Fidel, que somente agora ao ser tolhido por séria enfermidade concordou em entregar ao irmão Raul Castro, foram considerados e tratados como criminosos todos os cidadãos dotados da coragem de divergir. Muitos deles condenados à morte.
Tal ignomínia contra as liberdades celebradas na Carta dos Direitos Humanos, uma década mais velha que a revolução cubana, foi mais uma vez perpetrada recentemente, em 2003, com o fuzilamento de três seqüestradores que tencionavam fugir para os Estados Unidos a bordo de uma lancha. Na ocasião, o escritor português José Saramago, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura e insuspeito admirador do regime cubano, escreveu memorável artigo para o jornal espanhol El País, no qual declarou textualmente: “Até aqui cheguei. A partir de agora Cuba seguirá seu caminho, eu fico”.
O rompimento formal e incisivo do renomado intelectual, vazado em termos inequívocos e realistas se espalhou pelo mundo como um rastilho de pólvora, muito embora tivesse sido recebido com impenetrável mutismo pelo governo cubano. Essa hedionda discriminação permanece como mancha indelével sobre os ideais duma revolução que prometia a liberdade, mas em contrapartida perseguiu, prendeu e silenciou políticos, escritores, poetas, artistas e gente simples do povo. Milhares de cidadãos conseguiram escapar de Cuba e na amargura do exílio, escritores do porte de Guilhermo Cabrera Infante e Reinaldo Arenas lograram retratar com todas as minúcias as absurdas e inaceitáveis agressões cometidas por um governo que derrubou o fascismo para, em seguida, horrorizar o mundo livre com o emprego de métodos ainda mais repugnantes.
Não se pode esconder feitos extraordinários como a atenção básica de saúde dispensada à população por uma rede de 256 hospitais, 13 centros de pesquisa médica, 445 clínicas 24 horas e 14 mil médicos da família. Cuba ocupa atualmente o nono lugar dentre todas as nações do globo em investimentos públicos na educação, obtendo uma taxa de alfabetização de quase 100% da população. No entanto, não concede a seus cidadãos o direito de pensar livremente. Sem dúvida, uma melancólica reflexão para o dia da confraternização universal.