Era o tempo do milagre econômico brasileiro, na década de 70. Era tempo de euforia. Lecionando no curso de Economia da Universidade Estadual de Londrina, dentre outros textos, o livro Desenvolvimento e Crise no Brasil, de Luiz Carlos Bresser Pereira, professor da Fundação Getúlio Vargas – SP era referência fundamental.
Anos depois nos tornamos próximos, lutando pela redemocratização. Pensador vigoroso, economista e cientista social, defende a idéia de que uma nação será tanto mais forte quanto mais coesa e capaz de definir o próprio destino, em vez de se deixar guiar pelas recomendações externas. Exemplificando: ?Os países asiáticos estão fazendo a revolução capitalista a seu modo, de acordo com o novo desenvolvimento?.
Militante político e fundador do PSDB, Bresser Pereira ao analisar o anuário institucional envolvendo os partidos que governaram e governam na última década, é impiedoso: ?Temos de nos dar conta do quanto PSDB e PT são parecidos um com o outro e como eles perderam a capacidade de entender o País?. Ambos têm um discurso superado, porque nada têm a dizer sobre nação e desenvolvimento econômico. O problema fundamental do Brasil é recuperar a idéia de nação e voltar a se constituir numa nação! Só dessa forma poderá voltar a se desenvolver.
À sua formação acadêmica, Luiz Carlos Bresser Pereira alia a visão do empresário moderno e ex-ministro da Fazenda. É dele o objetivo e cartesiano pensamento que se segue neste original ?artigo-entrevista?.
1. ?O ciclo que deu origem ao PSDB e ao PT é o da democracia com justiça social. Esse ciclo se mostrará incapaz de oferecer as respostas necessárias para o desenvolvimento. Qual foi a estratégia que os dois partidos adotaram? O aumento do gasto social. O País estava de acordo, nos anos 80s que, para resolver o problema da educação, da saúde, da assistência social, era preciso aumentar o gasto. Foi bom porque houve diminuição da pobreza absoluta, houve melhoria da qualidade de ensino, o analfabetismo diminuiu bastante, a saúde evoluiu muito, os índices de mortalidade infantil caíram, o SUS, com todos os seus problemas, é um sucesso. Mas essa estratégia está esgotada porque não é mais possível aumentar os impostos. Tanto PT quanto PSDB são partidos de centro-esquerda que querem aprofundar a democracia, mas não sabem como.?
2. ?O PT tem um discurso mais à esquerda do que o PSDB. Ao perder o conceito de nação, o PSDB caminhou para a direita. E o PT, não. Mas a política econômica de Palocci é que continua, é um exemplo de política de direita. O PSDB foi a principal vítima. O PSDB de 1988 era mais à esquerda do que é hoje. A grande esperança em relação ao PT e, principalmente, ao PSDB é que um líder mude essa tendência. Acho que esse líder é José Serra. É possível, com ele, reencontrar essa idéia de nação e a idéia de esquerda.?
3. ?É falso que o Brasil não tenha recursos para se desenvolver. O Estado é espoliado em termos de juros. Uma política de juros muito mais baixa é fundamental. Felizmente desde 2002 começou a existir uma crítica mais competente à política macroeconômica. A ortodoxia convencional está na defensiva.?
4. ?Existe um espaço para a mudança. Resta saber se o presidente Lula vai aproveitar. O Lula é um político comum, não é um estadista. E políticos comuns seguem a linha dominante na sociedade. Se a sociedade estiver realmente mudando, recuperando o conceito de nação, ele tenderá a mudar também. Vejo uma mudança nos empresários industriais. Nos intelectuais, não. Estes são alienados. É preciso restabelecer a aliança com a burocracia do Estado.?
Autêntico livre-pensador, a independência na formulação dos conceitos é demolidora. Ao condenar o método excessivamente conservador de condução da economia pelos governos Fernando Henrique e Lula, sentencia que nem PT nem PSDB têm hoje qualquer idéia do que fazer para alcançar o desenvolvimento.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.