Hélio Duque
A economia brasileira, por cinco décadas, entre 1930 e 1980, foi aquela que mais cresceu no cenário econômico mundial. Infelizmente, nos últimos 25 anos ingressou no ritmo de tartaruga. Dispensável radiografar as origens desse travamento do desenvolvimento. Destacando apenas que na sua raiz estão os equívocos e incompetências de diferentes governos.
Visualizemos o futuro. É ele que interessa aos brasileiros. A desilusão política dos últimos tempos precisa ser superada. E o exemplo que vem da PUC-Rio ao criar o site ?Não reclame, vote? é uma convocação à participação e contra o voto nulo. A eleição geral de 2006 é uma oportunidade para um debate nacional, onde se exija dos candidatos uma disciplinada e objetiva agenda de desenvolvimento.
Se no passado o Brasil foi um sucesso de desenvolvimento, pelas suas potencialidades, não podemos nos acomodar no pessimismo e na falta de esperança. O economista sul-coreano Ha-Joon Chang, diretor de Estudos sobre Desenvolvimento da Universidade de Cambridge, recentemente, em conferência em Brasília, afirmava: ?Em 1938, o Brasil era um país menos industrializado do que o Equador. Apesar de todos os problemas, o País é hoje a potência industrial da América Latina. Isso é motivo de orgulho para os brasileiros?.
O caminho é buscar estratégias contemporâneas de desenvolvimento, para voltar a ter um crescimento acelerado com taxas de juros civilizadas e com elevação da taxa de investimentos, viabilizando a expansão da renda e do emprego formal. É o começo para um projeto de desenvolvimento socialmente equilibrado e com inclusão social.
Os candidatos à Presidência da República não podem omitir nos seus programas de governo compromissos claros com uma agenda desenvolvimentista que recoloque a economia brasileira na rota segura do crescimento. Ao invés da mediocridade das desqualificações políticas e pessoais, a sociedade deve exigir o debate adulto, onde o foco central sejam as questões nacionais que afetam diretamente a vida de todos. Ao invés das promessas demagógicas, populistas e de soluções fáceis, alicerçadas nos ?teatrinhos da mentira? dos Dudas Mendonças e os seus sucedâneos, a cidadania deve exigir propostas objetivas fundamentadas na alavancagem de um novo caminho para o desenvolvimento.
O governo que será eleito, a partir de 2007, não pode persistir na estúpida opção de controlar a inflação reprimindo a demanda. Ao contrário, deve elevar o investimento público e privado na infra-estrutura, que é um travamento seriíssimo na nossa economia. Aumentando o investimento, elevando a oferta que conterá a inflação. Hoje a balança de pagamentos vem tendo um desempenho satisfatório. Já a questão fiscal precisa ser enfrentada com coragem. São alguns balizadores que oferecem uma opção de crescimento seguro, sólido e com sustentabilidade. Tudo isso precisa ter uma taxa de juros real descendente bem abaixo dos 5%.
O Brasil não pode mais perder tempo na retomada da sua vocação para o desenvolvimento. Hoje a desindustrialização já é uma realidade no horizonte. As nações ricas e desenvolvidas só eliminaram as suas barreiras protecionistas quando atingiram alto nível de competitividade e riqueza, Hoje exigem na OMC (Organização Mundial do Comércio) a abertura do setor industrial dos países emergentes. É fundamental a definição de uma política industrial. Precisamos de uma governança que não ceda às pressões no sentido de o País abrir o setor industrial e de serviço, aceitando a falsa opção de ser um vanguardista na agricultura.
A questão tributária não pode estar ausente nesse grande debate nacional. A sua redução é imperativa. E o enxugamento dos crescentes gastos públicos com disciplinada e competente redução é missão fundamental.
Um governo firme, corajoso e que enfrentasse essas distorções com determinação de estadista, colocaria em um quadriênio o Brasil na rota segura do desenvolvimento. É preciso pensar na estratégia de médio e longo prazos. Ou faz esse caminho, ou seremos nos próximos anos atropelados, como um cachorro à beira da estrada, não somente por Índia, China, mas por países emergentes que ensaiam rotas de desenvolvimento na região do Pacífico asiático.
Felizmente, o Brasil é dotado de um potencial econômico imenso para retomar o caminho do empreendedorismo desenvolvimentista, interrompido há duas décadas e meia. Tenho fé no futuro.
Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.