Em agosto de 1961, quando Jânio Quadros renunciou à presidência da República, o vice-presidente João Goulart visitava a República Popular da China em caráter oficial. Era hóspede do chamado ?grande timoneiro?, Mao Tsé-Tung. O objetivo era estabelecer relações comerciais com a China comunista.
No Brasil, com a vacância do poder, os ministros militares vetaram a posse do vice. Dentre outros, um dos argumentos usados era que Goulart tinha inclinações marxistas e a prova era a sua presença na China. A guerra civil esteve próxima. A partir do Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola deu o grito de resistência em respeito à Constituição. Formou-se a Rede da Legalidade, que se expandiu para todo o País. As forças militares se dividiram e a população se mobilizou. A solução negociada apareceu e implantou-se o parlamentarismo, aceito por João Goulart, tendo Tancredo Neves na condição de primeiro-ministro.
Nos anos seguintes, Brasil e China intensificaram as suas relações diplomáticas e comerciais. Um caminho natural para duas realidades econômicas diferentes, mas de mútuo interesse pelo subdesenvolvimento que as caracterizava.
Em fins de março de 1964, visitava o Brasil uma missão diplomática e comercial chinesa. Em um dos pavilhões da Feira de São Cristóvão, no Rio, era montada exposição com máquinas agrícolas e outros bens produzidos na China que poderiam encontrar mercado entre nós. O Brasil iria, logo depois, promover exposição em Pequim, com os produtos que poderiam encontrar receptividade naquele mercado.
Nos idos de abril, com a derrubada golpista do governo Goulart, o imponderável e trágico aconteceria: os diplomatas chineses eram presos pela polícia do Estado da Guanabara, governado por Carlos Lacerda, um dos chefes do movimento militar vitorioso. Detidos nas dependências do DOPS, comandado pelo sanguinário Cecil Borer, os chineses foram torturados e massacrados por várias semanas. Logo em seguida o Brasil rompia relações diplomáticas com a China. Foi quando o admirável advogado Sobral Pinto resolveu defender os diplomatas. E uma forte mobilização internacional obrigou o governo Castelo Branco a liberar os ?perigosos? chineses, expulsando-os.
Nos anos seguintes, o Brasil intensificou relações diplomáticas e comerciais com a China nacionalista (hoje Taiwan), comandada por Chiang Kai-shek. Em Brasília, os chineses nacionalistas constroem uma esplêndida sede diplomática.
Na década de 70 essa realidade mudaria. Os EUA, no governo Richard Nixon, quebra a ortodoxia da ?guerra fria? e estabelece relações diplomáticas com o governo de Mao Tsé-Tung. Mais do que isso, visita a China acompanhado por grande delegação.
Em 1975, o governo Ernesto Geisel restabelece relações diplomáticas e comerciais com a China continental. Dá um ultimato à China nacionalista e, por ato de força, ocupa a majestosa embaixada construída em Brasília, passando o imóvel para a China comunista.
Brasil e China passam a partilhar um caminho de fecunda integração diplomática e comercial. A sabedoria milenar chinesa, herdeira dos melhores ensinamentos da Arte da Guerra, de Sun Tzu, daria ao Brasil uma grande lição. A sua primeira delegação a nos visitar tinha como chefe o vice-ministro do Comércio Exterior. Precisamente um dos ?perigosos? chineses detidos e torturados, nos idos de 1964, pela polícia política do Estado da Guanabara.
Com a ascensão ao poder de Deng Xiao Ping, a China estabeleceu um novo paradigma de desenvolvimento. Politicamente mantém o centralismo democrático de partido único. Economicamente adotou o pragmatismo de buscar o investimento externo. Questionado sobre a opção, Xiao Ping respondeu: ?Não interessa a cor do gato se ele combate os ratos?. Desde então aquela nação transformou-se na grande locomotiva do desenvolvimento contemporâneo.
Recentemente, escreveu-se que a aproximação do comércio bilateral entre chineses e brasileiros é fruto do trabalho do atual governo brasileiro. Um equívoco mortal. Fruto de uma mentalidade de quem acha que inventou a roda. Expressa um sonho delirante.
Com encontros e desencontros, ao longo de um passado recente, os dois países devem buscar, mantendo os seus interesses nacionais, uma via de intercâmbio comercial de mútuo interesse. Consolidando uma perspectiva econômica que se iniciou há mais de quatro décadas.
Hélio Duque é ex-deputado federal.