O vôo era para Santiago, partindo de São Paulo. No desembarque no Chile, na parte interna do aeroporto antes da aduana, metade dos brasileiros presentes naquele vôo são separados como gado marcado. Curioso, parei para ver o que estava acontecendo. Constatei a brutal realidade: eram jovens trabalhadores que seriam reembarcados para o México com destino final os EUA. Ilegais, iriam se aventurar pela travessia de uma fronteira hostil, conduzidos pelos ?coyotes? mexicanos em busca de trabalho que não encontram em sua terra.
O Brasil perde por ano 160 mil jovens que emigram buscando futuro fora das fronteiras da pátria. A grande maioria vivendo em situações adversas. Muitos ocupando funções rejeitadas pelos nativos norte-americanos. Situação não muito diferente para a maioria dos emigrados para a Europa e a Ásia. Fortes, determinados e corajosos, esses brasileiros se lançam como hordas pelo mundo afora buscando construir o futuro que aqui não enxergam. Esses sim, são verdadeiros heróis.
Em 2006 esses emigrantes brasileiros enviaram ao País 7 bilhões de dólares. Equivalente a mais de 14 bilhões de reais. Em 2005 a remessa líquida foi de 6 bilhões e 400 milhões de dólares. Quem atesta esse montante de recursos é o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Nos últimos anos, os valores das remessas vêm aumentando expressivamente.
O dinheiro enviado para as famílias ajuda substancialmente a superar o estágio de pobreza a que estariam sujeitas. A ?bolsa emigrante? é maior do que a ?Bolsa Família?. Para se ter uma idéia objetiva do que representou os 7 bilhões de dólares (mais de 14 bilhões de reais), o programa ?Bolsa Família? do governo federal gastou algo em torno de 11 bilhões de reais.
Só isso já expressa a importância fundamental da ?bolsa emigrante?, gerada na generosidade e solidariedade familiar desses valentes emigrados. Fruto de uma poupança solidária e, muitas vezes, sacrificante do próprio bem-estar material nas paragens estrangeiras. Os valores são diferenciados. Indo de 200 dólares até 1.000 dólares mensais, para aqueles alocados em melhores empregos.
Essa face invisível da economia brasileira é um componente do nosso PIB. Distantes milhares de quilômetros da pátria, esses brasileiros contribuem anonimamente para corrigir o desnível econômico e social que tem raízes profundas na sociedade nacional. Não o fazem por assistencialismo caritativo, ou almejando ser recompensados por gratidão. Praticam uma espécie de política pública privada de efetivo combate à miséria. E fazem conscientes da necessidade superior de minorar a pobreza familiar daqueles que aqui ficaram.
A ?bolsa emigrante? não custa um centavo ao Tesouro Nacional. Ao contrário, agrega recursos bem distribuídos na economia brasileira, a partir da estrutura familiar. Ela é fruto da estagnação e da falta de crescimento do Brasil nas últimas duas décadas. E a juventude é o setor mais vulnerável. Entre 1995 e 2005, o Brasil gerou 17,5 milhões de empregos. Desse montante, a absorção de jovens entre 16 a 25 anos foi de 1,8 milhão. Ela não se sente convocada para ajudar a construir um Brasil desenvolvido. O que gera uma realidade onde o diálogo com o futuro parece estar interditado.
Aí reside a origem da emigração expressiva que vem marcando o roteiro da juventude na última década. Somente com a retomada de uma agenda onde o desenvolvimento seja carro-chefe, o universo do emprego estancará essa evasão de jovens para terras ?lejanas?, onde o dólar é rei e o trabalho, imperador.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.