A democratização do mercado de capitais brasileiro vem se consolidando de maneira inegável. Ultrapassou o estágio adolescente para entrar na idade adulta. Em todo o mundo desenvolvido é uma alavanca e referencial básico para investimento nas atividades produtivas. Se no passado investir na Bolsa de Valores era opção de quem detinha a situação de endinheirado, no presente está se transformando numa opção efetiva de poupança para um número crescente de brasileiros. A sua popularização vem se dando com o alargamento da presença de pequenos e médios investidores.
O volume de ofertas públicas primárias e secundárias, através do lançamento de novas ações, vem marcando um momento de consistente euforia no mercado acionário nacional. A institucionalização do mercado pela sua profissionalização e a rigorosa atuação da Comissão de Valores Mobiliários, operando como autêntico xerife, eliminou a presença de aventureiros e malandros especuladores, como ocorreu no passado recente.
Não se pode esquecer o tempo criminoso dos ciclos especulativos que atingiram mortalmente o mercado acionário nacional. O ganho fácil pela manipulação desonesta dos pregões gerou, por décadas, desconfiança e falta de credibilidade por parte dos investidores. A presença especulativa tinha nos investidores individuais a sua matriz de atuação. Era uma realidade amadora e esperta operando nas duas pontas, tanto o aplicador quanto as corretoras e distribuidoras de valores operavam com a estreita visão de curtíssimo prazo. Ainda hoje, a desconfiança dos brasileiros em relação ao mercado de capitais é muito grande.
O grande objetivo das bolsas de valores modernas é proporcionar liquidez às pessoas que poupam e gerar recursos para as empresas crescerem. No Brasil, além da profissionalização da CVM e uma legislação punitiva aos especuladores, a diversificação da base institucional do mercado foi fundamental. O primeiro passo foi estabelecer mecanismos para que os fundos de pensão se tornassem investidores em ações, ampliando a combinação de pessoas físicas nacionais, estrangeiras e outras instituições, na crença de que o País não pode se desenvolver sem o mercado de capitais. Com a captação de recursos a custo zero, tende a ser uma excepcional frente de recursos para expansão e capitalização das empresas. A valorização das ações e a entrada de um número crescente de novos investimentos na bolsa geraram uma realidade virtuosa. O lançamento de ações tornou-se alternativa para empresas que buscam capital para crescer e não desejam se endividar no sistema financeiro nacional. A Bovespa formulou gráfico apresentando 59 empresas que tinham feito a abertura de capital até setembro de 2007. Captaram no mercado mais de 40 bilhões de reais, a custo zero. Para efeito comparativo, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), responsável pelo fomento da atividade econômica brasileira, vê naquele montante de recursos o equivalente a 60% do seu orçamento deste ano.
O fato objetivo é que o mercado acionário brasileiro passou a ser uma opção de investimento a longo prazo. E com isso os bancos estão deixando de ser o principal financiador de muitas empresas brasileiras. Com a estabilização econômica e a tendência de queda de juros, com os fundos de renda fixa diminuindo e a redução dos ganhos da caderneta de poupança, a principal alternativa para quem quer fazer o seu patrimônio crescer com dinamismo é o mercado acionário.
A Bolsa de Valores de São Paulo é hoje a quinta maior do mundo, tendo se transformado em um núcleo gerador e alocador de poupança. Nos últimos anos, além dos nacionais, os investidores estrangeiros vêm tendo presença ativíssima. O fato de as ações brasileiras serem relativamente baratas, no comparativo internacional, é o responsável por esses investimentos que asseguram rentabilidade garantida.
O caminho a ser percorrido, mantida a estabilidade com crescimento da economia brasileira e a obtenção do chamado ?grau de investimento? das agências de classificação de risco internacionais, será notável. A obtenção do ?investment grad? garantirá aos fundos de pensão internacionais, especialmente os norte-americanos, a autorização legal para investirem no Brasil.
Ao fim e ao cabo, a constatação de dezenas de milhares de brasileiros é a de que investir em ações deixou de ser um jogo digno de qualquer cassino. É uma opção de investimento de longo prazo seguro e de retorno garantido.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.