Milton Dallari

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O governo federal se acostumou a dar explicações sobre os problemas com pensões e aposentadorias, reajustes anuais e o recadastramento dos beneficiários da Previdência Social. Qualquer declaração malcolocada de um ministro vira um pandemônio, gerando desgaste no Planalto e deixando no ar a sensação de que pouco está sendo feito pelo setor. A verdade é que o salário baixo dos aposentados vem sendo depreciado por anos a fio. E o déficit acumulado com o pagamento de aposentadorias e pensões não pára de crescer.

Como se vê, não há realmente muito que se comemorar entre aqueles que passaram dos 65 anos e têm o direito de ingressar com o pedido de aposentadoria.

Mas nem tudo é notícia ruim no setor. Recentemente, o presidente Lula assinou uma medida provisória, já aprovada pelo Congresso Nacional, que garante o pagamento de uma pensão mensal aos portadores de hanseníase, doença que popularmente ficou conhecida como lepra. A iniciativa se estende a quem viveu uma parte da vida em hospitais-colônia. A quantia de R$ 750 deve ajudar muita gente a tocar sua vida adiante sem ter que ficar pedindo dinheiro emprestado aos familiares e vizinhos. A medida deve beneficiar mais de três mil pessoas.

A hanseníase é uma doença contagiosa que pode provocar deformações no corpo se não houver tratamento adequado. Seus primeiros registros médicos aparecem na China, por volta do ano 2600 a.C. A chegada à Europa teria ocorrido mais tarde, junto com as tropas do famoso conquistador Alexandre, o Grande.

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Durante a época das Cruzadas, entre os séculos XI e XIII, a doença se disseminou pelo continente. A lepra, como era conhecida popularmente, atingia as camadas mais pobres da população, o que acabou transformando o termo leproso em vocábulo pejorativo.

No Brasil, os primeiros registros da doença datam do final do século XVII. A partir de 1930, o governo decide internar os doentes em hospitais-colônia para evitar o contágio da população e tentar acabar definitivamente com a doença no País. Ainda hoje é possível encontrar o que sobrou de algumas unidades pelo interior de São Paulo. Os prédios para atendimento hospitalar ficavam distante das colônias onde os doentes moravam. Em alguns casos, chegou-se a instalar teatros e até cinemas para atender os doentes de hanseníase.

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Em meados da década de 60, a medicina começou a conhecer melhor a doença e a desestimular esse tipo de internação em vários países do mundo. O tratamento à base de remédios evoluiu bastante e a doença já tem cura.

O gesto do governo em pagar uma pensão às pessoas que passaram por essas instituições é um avanço em nossa sociedade. E não quero parecer exagerado.

Esses novos pensionistas sofreram com o preconceito por décadas, e muitos foram alijados da convivência com as pessoas de quem mais gostavam somente para atender à política de saúde governamental. Agora é hora de devolver alguma coisa a eles. E fazer justiça, mesmo que tardiamente.

Milton Dallari é consultor empresarial, engenheiro, advogado e presidente da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp. O e-mail para contato é o miltondallari@terra.com.br.